Faltam clientes e abunda tristeza nas lojas de Moscovo
Quase um ano depois do início da invasão da Ucrânia, pelas lojas de bairro da capital russa, Moscovo, passam menos clientes do que antes, e chora-se por um conflito que parece não ter fim. Vera, proprietária de uma pequena loja que vende apenas águas, tabaco, cerveja e petiscos relata à Lusa numa ensolarada manhã de sábado em Moscovo que tem atualmente “muito menos clientes" do que há um ano. "Digamos que a frequência caiu para metade. E, claro, isso reflete-se no dinheiro que entra todos os dias”, disse a comerciante do pequeno estabelecimento da rua Sannikova. “Sei, por conversa com proprietários de outros bares como este, que o panorama é semelhante em todo o lado. Sinal dos tempos, como não podia deixar de ser", adianta. Os preços dos fornecedores também são motivo de preocupação, pois "sempre que há uma entrega, paga-se mais pelos mesmo produtos". "Não muito mais, é certo, mas num negócio pequeno como este faz sempre diferença”, afirma. No pequeno estabelecimento, onde centenas de marcas de cerveja estão em exposição mas não cabe mais do que meia-dúzia de clientes - e a pé, pois não há lugares sentados - Vera diz acreditar na recuperação do negócio: "Estou convencida de que isto há-de passar, melhores tempos vão regressar para vivermos como dantes”. Mas a tristeza invade de novo esta comerciante enquanto recorda conversas que ouve enquanto trabalha. “Isto é pequeno, e aqui todos nos conhecemos. Não é raro alguém fazer-se ouvir para lamentar a partida para a frente [de combate na Ucrânia] de um amigo ou de uma pessoa da família”, confessa, procurando disfarçar a emoção. Com o mercúrio estacionado nos cinco graus negativos nas ruas da capital russa, o arménio Karen atende a clientela por uma espécie de postigo: Faz chaves, repara calçado, vende cordões de sapatos e isqueiros. Atualmente não tem queixas do negócio, segundo disse à Lusa. “Nos primeiros tempos do conflito, realmente a nossa actividade baixou um pouco. Depois, lentamente, as coisas foram-se compondo. Direi que estamos a 99 por cento do nível anterior à operaçao militar”, disse o comerciante, recorrendo à expressão utilizada pelas autoridades russas para designar a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Já na farmácia “Avilek”, aberta 24 horas por dia, Svetlana confirma que são sentidos os efeitos do conflito ou das sanções, "e de que maneira". "Muitos dos medicamentos importados desapareceram das prateleiras, por via das sanções. É claro que isso causa muitos sofrimentos à nossa população, que vê também em queda o seu poder de compra". "Sabe, são homens e mulheres habituados, ao longo da vida, a usufruirem de uma boa assistência médica e medicamentosa, e que agora se vêm privados desse importante componente da qualidade de vida. Alguns, são medicamentos vitais. A verdade é que eles sofrem”, frisou a farmacêutica. Mulher russa de nome ucraniano, Oxana vende brinquedos numa pequena loja de um centro comercial, e relata à Lusa que a ajuda da Câmara de Moscovo e outras entidades permitiu ultrapassar os tempos mais difíceis, estando agora as prateleiras da loja cheias e a atividade próximo do normal, no que se refere ao número de clientes e ao volume do negócios. Mas nesta loja de brinquedos não são brincadeiras de crianças que Oxana relata, e sim as inquietações destas com a guerra sem fim à vista, para mais contra um povo que todos se habituaram a ver como irmão. “Tenho um filho de 12 anos que conhece muito bem a história da Grande Guerra, que deve ser ensinada não só na escola, mas também na família. Os bisavós dele combateram nessa guerra. Ele levou um saco de artigos de primeira necessidade a um ponto de apoio aos refugiados ucranianos. Afinal, eles são um povo irmão, também eles ajudaram a libertar o mundo do fascismo", disse à Lusa a comerciante. Para Oxana, o povo ucraniano é mesmo família - uma análise ADN que fez revelou que 40 por cento do seu "sangue é de origem ucraniana". "O meu filho também conhece a história da família: em casa, desenhámos uma árvore geneológica até à quinta geração. É importante sabermos as nossas origens, é importante pensar nas coisas essenciais desde muito cedo", frisa. "Há dias, o meu filho perguntou-me: mãe, por que deixaram que acontecesse esta guerra?”, relata a comerciante, antes de, sem resposta, cair no silêncio e tentar disfaçar algumas lágrimas que teimavam em cair dos olhos.