Emmanuel Macron pode alcançar maioria parlamentar em França em eleição "tensa"
Ludovic Mendes, deputado francês do partido de Emmanuel Macron, recandidata-se na região de Moselle, prevendo uma maioria parlamentar para o Presidente, em clima de “enorme tensão” criada pelos partidos rivais. "Vamos ter uma maioria, talvez ainda mais alargada do que nas últimas eleições. Eu não me sinto ameaçado pela união das esquerdas, talvez isso aconteça nalguns territórios, mas a direita também tem uma palavra a dizer", afirmou Ludovic Mendes, deputado franco-português da Assembleia Nacional, em entrevista à Agência Lusa. “Do que eu tenho receio é desta vontade de Marine Le Pen [candidata da extrema direita] e Jean-Luc Mélenchon [da esquerda radical] de criar uma enorme tensão, dividir as pessoas e aumentar a violência”, adiantou. Filho de pai português e mãe espanhola, Mendes candidatou-se pela primeira vez como deputado em 2017, ganhou a segunda circunscrição da região de Moselle, junto à fronteira com o Luxemburgo e, passados cinco anos, volta candidatar-se pelo partido do Presidente, o República em Marcha. Marine Le Pen dominou a região de Moselle na primeira volta das presidenciais e na segunda Macron ganhou por muito pouco, pelo que Mendes diz que é importante mobilizar o eleitorado, o que admite não seja tarefa fácil. "A região de Moselle tem uma parte rural, onde tradicionalmente se vota ou União Nacional [extrema-direita] ou França Insubmissa [extrema-esquerda]. Portanto, hoje temos o cuidado de acompanhar os habitantes da região, criar empregos e preparar o futuro do nosso território. Mas acho que a minha reeleição vai ser mais complicada do que da última vez e é preciso mobilizar, mesmo se as pessoas não estão muito interessadas nas eleições", explicou. Depois da vitória de Emmanuel Macron na segunda volta das eleições presidenciais em abril, sobre a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, as legislativas vão definir a composição do próximo parlamento. A primeira e segunda voltas das eleições legislativas estão marcadas, respetivamente, para 12 e 19 de junho. Segundo Mendes, argumentos não faltam aos candidatos da maioria. "Uma grande vitória foi a descida da taxa de desemprego. Nunca tivemos tão pouco desemprego, o investimento em França é enorme, tanto de empresas nacionais como estrangeiras, voltámos a ter emprego na indústria. Acho que demos as respostas certas à violência nas famílias, ao lugar das mulheres na nossa sociedade, mesmo se para algumas associações ainda não é suficiente", detalhou. Um dos dossiers que ocupou os últimos meses Ludovic Mendes no Parlamento francês foi o relatório pedido por Macron sobre violência antirreligiosa em França, ficando a saber-se só em 2021 foram apresentadas mais de 1.600 queixas em 2021 por crimes cometidos contra diferentes práticas religiosas. "Foi um tema que se falou na campanha e o Presidente assegurou que este tema não será posto de parte. Achamos que há dez vezes mais de crimes antirreligiosos em França do que os que são denunciados através de queixas na Polícia. [...] Há um problema à volta de tudo o que é sagrado e é como se a sociedade estivesse numa transição e quisesse esquecer tudo que está ligado ao passado. Mas não pode ser assim, precisamos do passado para preparar o futuro", indicou Ludovic Mendes. No relatório, o deputado sugere uma maior integração da história religiosa nas escolas francesas, entre outras medidas. Durante o seu mandato, o deputado teve ainda alguns ‘braços de ferro’ com o Ministério do Interior e da Justiça, por defender a legalização para fins terapêuticos da canábis e da CBD, uma substância cujo consumo se expandiu recentemente em França e representa atualmente uma indústria de entre 500 milhões a mil milhões de euros no país. "Houve uma tentativa de enquadrar este mercado por parte das autoridades, mas como se fosse canábis e não é. O Estado atacou estas empresas, a União Europeia lembrou à França que há regras europeias sobre isto, o Estado disse que não se podia consumir folhas e flores da planta, o Conselho de Estado travou essa decisão e vivemos num vazio. A CBD não está legalizada, mas pode vender-se", explicou. Sobre as dissidências na maioria e acusações da oposição que os deputados do República em Marcha são obrigados a votar na linha de pensamento do Governo e do Presidente, Mendes nega que a maioria se comporte dessa maneira. "Senti-me sempre livre quando votei na Assembleia Nacional. Nunca houve tantos textos apresentados por uma maioria que foram modificados por essa mesma maioria e não pela oposição. Quem saiu em dissidência foi por escolha própria, estavam descontentes", relatou. Para os próximos cinco anos, Ludovic Mendes, que é também o presidente do grupo de amizade França-Portugal na Assembleia Nacional, quer continuar a trabalhar na proteção das crianças, nos direitos das pessoas LGBTQIA+ e na inclusão. "Acho que o nosso país ainda não está onde deve estar. Há ainda muito a fazer na nossa sociedade, nos laços que nos unem. Trabalhámos muito sobre a economia, sobre o trabalho, mas acho que devemos falar mais sobre a inclusão, as pessoas com deficiência, os direitos das pessoas homossexuais e transexuais, os direitos dos imigrantes e das diferentes religiões", indicou. Condenado em 2020 por um tribunal administrativo devido a uma liquidação judicial da sua antiga empresa, Mendes recorreu da sentença que o impede de dirigir durante dois anos uma empresa e está ainda à espera da decisão. Para este candidato, a condenação não o deve impedir de se apresentar às urnas. "Há o código penal, o código civil e o código comercial e nem tudo é a mesma coisa. Quando se é condenado a nível penal, a pessoa não se deve candidatar. Se se dissesse a todos os empresários que por terem uma liquidação judicial não se podiam candidatar, ninguém viria para a política, como se não houvesse uma segunda oportunidade", concluiu.