França consulta parceiros europeus e africanos para repensar presença militar no Sahel
A França deve anunciar até ao fim desta semana uma mudança estratégica da sua presença no Mali, com o possível fim da operação Barkhane, mas também da operação europeia Takuba, com uma nova missão a poder vir a instalar-se no Níger. Os sucessivos golpes de Estado no Mali e o reforço da presença dos mercenários russos da empresa Wagner no país agudizaram as tensões entre Paris e Bamako nas últimas semanas, com o embaixador francês a ter sido expulso do país e podendo mesmo levar nos próximos dias ao anúncio do fim da presença das tropas francesas no país. Hoje à noite, vários chefes de Governo e de Estado europeus e africanos, entre eles o primeiro-ministro português, António Costa, vão encontrar-se no Palácio do Eliseu, a convite de Emmanuel Macron para tentar encontrar uma solução para as tropas ocidentais no Mali. "Ao nível militar, as consultas têm sido permanentes, o que permitiu partilhar o diagnóstico, mas também testar as várias opções. Os documentos circulam para tentar desenhar qual será o quadro e o futuro da presença internacional no Sahel", disse fonte do Eliseu. A França possui uma das suas maiores operações militares no Mali desde 2013, com a operação Barkhane a envolver atualmente cerca de 4.300 efetivos no Sahel e cerca de 2.500 estão no Mali. Esta não é a única força estrangeira no país, com um total de 25 mil soldados estrangeiros com diferentes mandatos a atuarem no Sahel. No entanto, as forças francesas no Mali são centrais, já que a operação Barkhane possui um hospital militar que presta cuidados médicos a soldados que estão integrados na missão Takuba, uma missão europeia que conta com militares portugueses no combate ao terrorismo na região, e a MINUSMA, missão das Nações Unidas para a paz no Sahel. No Mali, onde atualmente atuam mais de 800 efetivos da empresa russa Wagner, e com a junta militar no poder a rejeitar a chegada de 100 soldados dinamarqueses que deveriam reforçar Takuba, as autoridades europeias têm cada vez mais dificuldades em desenvolver manobras militares de combate ao terrorismo. "O Mali está a tornar-se num regime ditatorial, como foi sob a liderança de Moussa Traoré (...). O Mali está na origem de conflitos com os parceiros africanos, europeus e internacionais, constatamos uma degradação das condições no país, onde os dirigentes se desinteressam cada vez mais do seu povo", disse fonte diplomática europeia à Agência Lusa. Na manhã de quinta-feira, Emmanuel Macron vai falar à comunicação social sobre a solução encontrada entre parceiros europeus e parceiros africanos sobre o futuro da presença das tropas europeias no Sahel. A opção será agora uma nova missão, potencialmente instalada no Níger, país que já pediu a intervenção militar internacional para levar a cabo a luta contra os terroristas. "Qual será a forma exata dessa missão? É o que está em discussão, mas a experiência de trabalho entre as forças especiais europeias e o exército nacional no Mali interessa às autoridades do Níger. E vamos ver como conseguimos reproduzir essa experiência no Mali numa forma que não vai forçosamente chamar-se Takuba", indicou fonte da presidência francesa. As autoridades francesas afirmam que este não é "um abandono" do Mali, já que o apoio às comunidades locais vai continuar, com a França a ter suspendido as ajudas diretas ao orçamento do país, mas a continuar a contribuir através de ajuda humanitária no terreno. Na cimeira União Europeia - União Africana que vai acontecer quinta e sexta-feira em Bruxelas, o Mali estará no centro da discussão, sendo importante para as potenciais europeias que a sequência de golpes de Estado no país e a associação a empresas como a Wagner continue a ser sancionada pela comunidade internacional. "O Mali não pode ser um precedente para que os golpes de Estado se continuem a suceder em diferentes países africanos", salientou fonte diplomática europeia à agência Lusa. A força europeia Takuba conta com tropas francesas, mas também da Alemanha, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Estónia, Grécia, Itália, Noruega, Holanda, Portugal, Roménia, Reino Unido e Suécia.