“Viver da arte, ainda mais aqui na Madeira, é uma utopia de todo o tamanho”
2014-12-02 15:00:06 Tribuna da Madeira

“Viver da arte, ainda mais aqui na Madeira, é uma utopia de todo o tamanho”

Teresa Brazão É um nome incontornável da cultura madeirense e dispensa apresentações. O Tribuna falou com Teresa Brazão a propósito da sua mais recente exposição de pintura “Show me the Way to the next Whisky Bar”, patente até Março no Ateneu Café. Uma conversa que acabou por resvalar para algumas considerações sobre a cultura na Madeira. Porquê este título “Show me the way to the next Whisky Bar” para esta exposição? Como vê tenho aqui um quadro começado, que vai ser o primeiro da exposição do próximo ano. O que é que eu estou a fazer? Estou a aproveitar a embalagem da exposição anterior e estou começando. Depois de certeza que vai aparecer qualquer coisa. Quando fazemos uma exposição nós não lhe damos o título primeiro e depois fazemos os quadros. É ao contrário. Relativamente a esta unidade tem, pois se vermos a exposição, verificamos que tem unidade, até pelo simples motivo de ter sido feita. Nesta mostra apresento exclusivamente os trabalhos de 2014 e há uma sequência de pensamento, porque a criatividade rege-se por determinadas leis, que nós não sabemos muito bem quais são, não é verdade? Mas uma coisa é certa, há alguma coerência, há alguma coisa que faz com que elas constituam um todo. Portanto a pessoa acaba de fazer aquele grupo de quadros, fruto do percurso entre Dezembro de 2013 e Novembro de 2014 e vê que teve a dizer qualquer coisa durante este tempo todo. Eu acabo por fazer mais ou menos o papel de curadora da minha própria exposição, o que não é muito fácil. Hoje em dia o que se costuma fazer é convidar uma pessoa para organizar as exposições dos outros. Eu aqui acabo por assumir o trabalho todo, além de fazer os quadros, tenho que também ser curadora, a pessoa que organiza a exposição sou eu. Quando analisamos os quadros de outra pessoa temos mais distância e é mais fácil do que para analisar os nossos próprios quadros. Então acabamos por olhar para dentro de nós e ver o que é que estivemos a fazer. “Show me the way to the next Whisky Bar”, encerra também uma certa ironia. Há também um certo sentido de humor por trás do título, já que eu realmente vejo nos quadros que fiz a representação contínua de bocados da realidade. São bocadinhos que não são importantes, são as pernas debaixo da mesa, é a mesa, mas já não se vê as caras… Ao contrário da exposição anterior, a “Wings”, que era muito figurative, em termos de figura humana e de caras, de representação do rosto, esta praticamente não tem rostos porque estes desvanecem-se completamente. São os outros pormenores que vão chamar a atenção. Isto, para mim, tem a ver com memórias da minha vida anterior, do meu percurso, disso tudo. Tenho 62 anos, vivi os anos 60 por exemplo, e aqueles jeans todos que vemos nos quados, o ar blasé que as figuras representadas têm faz-me lembrar o espírito, uma maneira de ser e estar dos anos 60, mais 70 porque aqui à Madeira as coisas de 60 acabaram por chegar em 70, mais concretamente depois do 25 de Abril. Faz-me lembrar aquelas ocasiões em que as pessoas se reuniam, faziam as suas tertúlias, falavam e tinham aí verdeiramente “ataques” de criatividade coletiva, discutiam os assuntos relacionados com o bem estar comum, com política, com história, com filosofia… eram as verdadeiras tertúlias. Agora já não se faz isso, ja não esse espírito? Eu acho que é mais falso. Hoje em dia tenta-se provocar esse tipo de espírito, até se usa o nome tertúlia de várias maneiras, mas no fundo são mais reuniões de pessoas, porque as tertúlias tinham de ser espontâneas. Nessa altura não diziamos assim: “Amanhã vamos reunir-nos e fazer uma tertúlia para o Café do Teatro ou para o Pateo”. Não era assim, as coisas aconteciam espontaneamente e quando estavam certas pessoas. Dependendo das pessoas que faziam parte desse grupo, variavam os assuntos que eram falados e isso dava, muitas vezes, explosões de criatividade. Isso fez-me lembrar justamente essa época e os Doors e o Jim Morrison, e o “Show me the way to the next Whisky Bar”. Ninguém vai te meter um whisky pela boca abaixo, vai mas é ensinar o caminho para o próximo whisky bar… Isto é figurativo mas quer dizer, as pessoas têm de aprender a fazer coisas, aprender a raciocinar, a ser elas mesmas sem ser com a papinha toda feita. É mais ou menos como diz aquele provérbio oriental, não lhe dês um peixe, dá-lhe uma cana para pescar. É portanto à volta destes classissismos todos que eu vou dar o nome à exposição “Show me the way to the next Whisky Bar”, uma música que, embora esteja extremamente ligada ao Jim Morisson e aos anos 60, foi escrita muito mais cedo, nos anos 30, e depois quase que virou uma música popular alemã porque foi interpretada por muita gente, como a Nina Hagen. Na página do Facebook sobre a exposição fizemos uma recolha enorme de interpretações do “Show me the way to the next Whisky Bar”, o refrão da música Alabama Song. A Teresa falou há pouco no facto de ser uma espécie de curadora das suas próprias exposições. Isso não tem a aver com o facto de não as numa galleria de arte? Mas esse se calhar deveria ser o caminho que os artistas madeirenses […]

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