Chega isolado no parlamento, acusado de querer instrumentalizar forças de segurança
O Chega ficou hoje isolado no debate parlamentar sobre forças de segurança, acusado de montar “um número político”, confundir “o todo pela parte” e de não “separar o trigo do joio” nas acusações de racismo e xenofobia na polícia. O debate pedido pelo Chega, com o tema "As forças de segurança e as suas carreiras, o racismo e a perseguição por parte do poder político em Portugal", levou a generalidade dos grupos parlamentares a demarcar-se do partido liderado por André Ventura nas posições sobre racismo e xenofobia nas forças de segurança. O PSD, pelo deputado Pinto Moreira, que começou por dirigir as suas críticas ao Governo, ausente do debate, e à maioria socialista, atribuindo-lhes responsabilidades pela falta de meios e condições operacionais das polícias, acabou a concluir a intervenção a referir-se à questão do racismo e a defender que a posição dos sociais-democratas “é a de separar o trigo do joio”. Já numa resposta a André Ventura, Pinto Moreira voltaria a demarcar os sociais-democratas das posições do Chega, reafirmando os princípios “humanistas e universalistas” do partido: “Acima de tudo está a dignidade da pessoa humana e é exatamente este muro que nos separa”. Inês de Sousa Real, do PAN, acusou o Chega de “montar um número político” e de querer transformar as forças de segurança num “braço armado” de forças políticas, algo que o partido “não poderá jamais acompanhar”. A propósito de casos de racismo divulgadas num trabalho de investigação por um consórcio de jornalistas, que contou com a colaboração de agentes policiais, que denunciaram práticas ilegais de colegas, Inês de Sousa Real criticou o Chega por não ficar ao lado dos que fizeram as denúncias. “Digam aqui aqueles agentes que juraram servir o país, digam que em vez de se colocar ao lado dos que trazem dignidade às forças de segurança, preferem colocar-se ao lado dos 1,6% dos que nunca deviam vestir uma farda”, disse, por seu lado, Pedro Filipe Soares, do BE, aludindo ao universo de agentes policiais visados no trabalho de investigação jornalística como autores de comportamentos racistas e xenófobos. Pedro Filipe Soares acusou o Chega de se “por ao lado dos que mancham as forças policiais”, de instrumentalizar as forças de segurança e de querer “arranjar desculpas a quem veste uma farda para cometer condutas impróprias”. “Digam isso a estes agentes que reconhecem a responsabilidade da farda que usam e se sentem enlameados por quem a mancha”, disse o deputado bloquista. O PCP, a quem André Ventura reconheceu “trabalho feito” em prol das forças de segurança, disse que a matéria em discussão “merecia um debate sério” e acusou o Chega de “meter tudo no mesmo saco”, invocando o universo de 600 agentes visados na investigação jornalística que fazem com que os restantes cerca de 50 mil “não sejam chamados ao barulho”. O momento mais quente da primeira ronda do debate acabaria por ser protagonizado por Rui Tavares, deputado único do Livre, e André Ventura, com o deputado do Livre a alertar os agentes da polícia para a necessidade de separação entre “amigos verdadeiros e falsos amigos”, sublinhando que estes últimos “são os que bajulam, usam e manipulam”. Na resposta, André Ventura evocou a antiga deputada eleita pelo Livre, na anterior legislatura, Joacine Katar Moreira. ”Ouvir o único deputado desta casa que tinha uma deputada negra sentada no seu lugar, que a mandou embora, ouvir dizer que somos racistas…”, disse André Ventura, apontando de seguida para o deputado Mithá Ribeiro para afirmar que o Chega é o único grupo parlamentar com um deputado negro, gerando uma onda de indignação na câmara, com o PS a lembrar a deputada Romualda Fernandes. À resposta de André Ventura à indignação geral, que referiu que Romualda Fernandes é uma mulher e não um homem para justificar a referência, o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, fez a primeira advertência do debate: “Sabe bem que se está a aproximar de caminhos que o senhor deputado não deve percorrer”. "Queria dizer-lhe a si, senhor presidente, que ouvi aqui hoje um momento que considero lamentável - aliás a expressão mais usado neste parlamento vergonhoso - quando se falou do senhor deputado Gabriel Mithá Ribeiro e da senhora deputada Romualda Fernandes quase como troféus, para mim ambos merecem todo o respeito desta casa e do país, não são de cor negra, como outros não são asiáticos, são portugueses, é por isso que estamos aqui”, disse André Coelho Lima, do PSD, já numa segunda ronda de intervenções, motivando um aplauso generalizado da câmara. Pelo PS a deputada Isabel Moreira, numa resposta à intervenção de Pedro Filipe Soares, afirmou que existe em Portugal racismo estrutural e institucional e que só “por milagre”, após 40 anos de colonialismo, teria escapado a esta realidade, que não se pode enfrentar o problema do racismo e da xenofobia “só quando surge uma notícia” e “começando do zero”, como se não se tivesse passado nada antes, e referiu um “grave problema de infiltração da extrema-direita nas forças de segurança”. Ainda pelo PS, Susana Amador elencou medidas do executivo para resolver os problemas das forças de segurança e mencionou a aprovação do uso de ‘bodycams’ pelos agentes como uma garantia de segurança para polícias e cidadãos, ao que a deputada do PSD Sara Madruga da Costa respondeu com acusações de propaganda.