2021-06-30 05:00:00 Jornal de Madeira

Joe Berardo detido por suspeitas de fraude

O empresário madeirense Joe Berardo foi detido, esta terça-feira, em Lisboa, por suspeitas da prática de crimes de administração danosa, burla qualificada, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, no âmbito de uma investigação aos créditos ruinosos da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A detenção aconteceu no âmbito de uma megaoperação da Polícia Judiciária (PJ) e do Ministério Público (MP), que envolveu 180 profissionais (138 da PJ, 26 da Autoridade Tributária, 9 do MP e 7 do Juízo de Instrução Criminal), num total de 51 buscas (22 domiciliárias, 25 não domiciliárias, 3 numa instituição bancária e 1 num escritório de advocacia), que se estenderam por Lisboa, Funchal e Sesimbra. Três inspetores da PJ estiveram também no Museu Coleção Berardo, tendo pedido uma lista das obras de arte que integram a coleção, arrestada judicialmente desde 2019. Para além do colecionador, que será ouvido esta quarta-feira pelo juiz Carlos Alexandre para primeiro interrogatório judicial, onde ficará a conhecer as medidas de coação, também foi detido o seu advogado André Luiz Gomes. Em causa estão os empréstimos obtidos junto do banco público, em 2006. Segundo esclareceu a PJ, esta investigação, iniciada em 2016, “identificou procedimentos internos em processos de concessão, reestruturação, acompanhamento e recuperação de crédito, contrários às boas práticas bancárias e que podem configurar a prática de crime”, estando sob suspeita a contratualização de quatro operação, entre 2006 e 2009, no valor de 439 milhões de euros. "Este grupo económico tem incumprido com os contratos e recorrido aos mecanismos de renegociação e reestruturação de dívida para não a amortizar”, acrescentou, sublinhando que estes são “atos passiveis de responsabilidade criminal e de dissipação de património”. A investigação aponta ainda para o facto de que os créditos concedidos pela CGD terão sido conseguidos graças à relação entre Berardo e o antigo primeiro-ministro José Sócrates. Em declarações à porta dos edifícios da PJ, Paulo Saragoça da Matta, advogado que agora representa Berardo, revelou que o seu cliente está “muito sereno” e “calmo”, mas deixou críticas ao ‘timing’ desta detenção. “Acho sempre curiosas estas investigações que duram 5 ou 6 anos e só depois é que alguém se lembra de haver uma detenção”, atirou. Já, e m comunicado, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal, reconheceu que a investigação não teve a "celeridade desejável (...) por carência de meios técnicos e outros ajustados à natureza, dimensão e complexidade da investigação”. Mil milhões em dívidas à banca Para compreender o caso Berardo é preciso recuar até 2006/2007, quando o empresário madeirense começou por pedir um empréstimo à CGD. Entre créditos ruinosos e tentativas de adiamento dos pagamentos dos mesmos, Joe Berardo foi acumulando uma dívida que já ascende aos 439 milhões de euros. ​ As operações de crédito, que, entretanto, originaram uma exposição da CGD de 268 milhões de euros, serviram para financiar a aquisição de ações do BCP, que ficou apelidada de ‘assalto’ ao banco, em 2007, dando como garantia as próprias ações, que, mais tarde, perderam abruptamente o seu valor, gerando perdas avultadas para o credor. Mas a verdade é que a dívida do ex-emigrante está longe de ficar por aqui. Às contas por liquidar no banco público, somam-se ainda as quantias por pagar ao BCP e ao Novo Banco, de 230 milhões e 330 milhões de euros, respetivamente, que colocam o dono de uma das maiores coleções privadas de arte da Europa na lista negra da banca portuguesa, à qual deixou um ‘buraco’ de quase mil milhões de euros. Estas dívidas, contraídas por meio das empresas ligadas ao universo Berardo e não em nome próprio, levaram a que os três credores iniciassem um processo judicial contra o empresário, a quem exigem o pagamento de 962 milhões e que levou à penhora de diversos bens e de parte da sua pensão. Só em setembro de 2019, foram arretadas 2.200 as obras de arte, levando a que a defesa de Berardo apresentasse uma oposição à penhora.

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