Joe Berardo detido por suspeitas de fraude
O empresário madeirense Joe Berardo foi detido, esta terça-feira, em Lisboa, por suspeitas da prática de crimes de administração danosa, burla qualificada, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, no âmbito de uma investigação aos créditos ruinosos da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A detenção aconteceu no âmbito de uma megaoperação da Polícia Judiciária (PJ) e do Ministério Público (MP), que envolveu 180 profissionais (138 da PJ, 26 da Autoridade Tributária, 9 do MP e 7 do Juízo de Instrução Criminal), num total de 51 buscas (22 domiciliárias, 25 não domiciliárias, 3 numa instituição bancária e 1 num escritório de advocacia), que se estenderam por Lisboa, Funchal e Sesimbra. Três inspetores da PJ estiveram também no Museu Coleção Berardo, tendo pedido uma lista das obras de arte que integram a coleção, arrestada judicialmente desde 2019. Para além do colecionador, que será ouvido esta quarta-feira pelo juiz Carlos Alexandre para primeiro interrogatório judicial, onde ficará a conhecer as medidas de coação, também foi detido o seu advogado André Luiz Gomes. Em causa estão os empréstimos obtidos junto do banco público, em 2006. Segundo esclareceu a PJ, esta investigação, iniciada em 2016, “identificou procedimentos internos em processos de concessão, reestruturação, acompanhamento e recuperação de crédito, contrários às boas práticas bancárias e que podem configurar a prática de crime”, estando sob suspeita a contratualização de quatro operação, entre 2006 e 2009, no valor de 439 milhões de euros. "Este grupo económico tem incumprido com os contratos e recorrido aos mecanismos de renegociação e reestruturação de dívida para não a amortizar”, acrescentou, sublinhando que estes são “atos passiveis de responsabilidade criminal e de dissipação de património”. A investigação aponta ainda para o facto de que os créditos concedidos pela CGD terão sido conseguidos graças à relação entre Berardo e o antigo primeiro-ministro José Sócrates. Em declarações à porta dos edifícios da PJ, Paulo Saragoça da Matta, advogado que agora representa Berardo, revelou que o seu cliente está “muito sereno” e “calmo”, mas deixou críticas ao ‘timing’ desta detenção. “Acho sempre curiosas estas investigações que duram 5 ou 6 anos e só depois é que alguém se lembra de haver uma detenção”, atirou. Já, e m comunicado, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal, reconheceu que a investigação não teve a "celeridade desejável (...) por carência de meios técnicos e outros ajustados à natureza, dimensão e complexidade da investigação”. Mil milhões em dívidas à banca Para compreender o caso Berardo é preciso recuar até 2006/2007, quando o empresário madeirense começou por pedir um empréstimo à CGD. Entre créditos ruinosos e tentativas de adiamento dos pagamentos dos mesmos, Joe Berardo foi acumulando uma dívida que já ascende aos 439 milhões de euros. As operações de crédito, que, entretanto, originaram uma exposição da CGD de 268 milhões de euros, serviram para financiar a aquisição de ações do BCP, que ficou apelidada de ‘assalto’ ao banco, em 2007, dando como garantia as próprias ações, que, mais tarde, perderam abruptamente o seu valor, gerando perdas avultadas para o credor. Mas a verdade é que a dívida do ex-emigrante está longe de ficar por aqui. Às contas por liquidar no banco público, somam-se ainda as quantias por pagar ao BCP e ao Novo Banco, de 230 milhões e 330 milhões de euros, respetivamente, que colocam o dono de uma das maiores coleções privadas de arte da Europa na lista negra da banca portuguesa, à qual deixou um ‘buraco’ de quase mil milhões de euros. Estas dívidas, contraídas por meio das empresas ligadas ao universo Berardo e não em nome próprio, levaram a que os três credores iniciassem um processo judicial contra o empresário, a quem exigem o pagamento de 962 milhões e que levou à penhora de diversos bens e de parte da sua pensão. Só em setembro de 2019, foram arretadas 2.200 as obras de arte, levando a que a defesa de Berardo apresentasse uma oposição à penhora.