Ucrânia: Fornecimento de 'drones' à Rússia alvo de críticas internas no Irão
Um académico iraniano, Kayahn Barzegar, revelou hoje que o fornecimento de ‘drones’ militares à Rússia para atacar a Ucrânia está a ser alvo de debate interno no Irão por romper com a tradicional neutralidade em conflitos. “Este debate polarizou a política interna iraniana, que [defende que] o Irão deve manter a sua neutralidade tradicional”, referiu o consultor académico no Instituto de Estudos Políticos e Internacionais iraniano durante um seminário organizado hoje pelo centro de investigação britânico de defesa e segurança Royal United Services Institute (RUSI). Segundo Barzegar, na perspetiva iraniana esta "é uma questão de segurança política e de melhorar as relações com os amigos tradicionais que ajudaram o Irão nos tempos difíceis, nos tempos de crise”. “Ao mesmo tempo, o Governo iraniano diz que [o apoio à Rússia] tem sido exagerado porque estes ‘drones’ não vão mudar o rumo da guerra”, acrescentou. O Irão reconheceu, em novembro, ter fornecido ‘drones’ (aeronaves não tripuladas) à Rússia, mas disse que foi apenas “um pequeno número” antes do início da guerra. Os ‘drones’ Shahed-136 têm sido usados em bombardeamentos suicidas de alvos e infraestruturas civis ucranianas, como centrais de energia. Para o especialista em Relações Internacionais, o regime iraniano quer manter "uma espécie de equilíbrio entre a sua neutralidade tradicional e a realização de um acordo de armamento com a Rússia”. Através desta cooperação, Teerão espera obter equipamento mais sofisticado, como os caças SU-35, para reforçar o poder dissuasor contra a ameaça de países vizinhos. "O Governo diz que estabeleceu estes termos antes da guerra” e que existe um "intercâmbio tecnológico e de armamento entre o Irão e a Rússia há muitos anos”, adiantou. Barzegar disse que o regime iraniano tem-se esforçado para “convencer as autoridades ucranianas que o Irão é neutro e vai continuar neutro”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão declarou no domingo à noite que apoia a proposta de paz da China para a Ucrânia, que aponta como prioridades o "diálogo e as negociações" e que foi recebida com ceticismo pelo Ocidente. "O Irão considera que os elementos refletidos neste documento são suficientes para iniciar negociações com vista a encontrar um quadro operacional para o fim das atividades militares na Ucrânia", indicou a diplomacia iraniana, em comunicado. O Irão também mostrou vontade de "contribuir para uma resolução pacífica da crise". A ofensiva militar russa no território ucraniano, lançada a 24 de fevereiro do ano passado, mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).