Advogado do alegado financiador do genocídio no Ruanda descreve Kabuga como "homem de negócios"
Félicien Kabuga, alegado financiador do genocídio no Ruanda em 1994, não era um senhor da guerra mas um homem de negócios apanhado pelo caos do seu tempo, afirmou hoje o seu advogado num tribunal da ONU em Haia. Félicien Kabuga, de 87 anos de idade, outrora um dos empresários mais ricos do Ruanda, está a ser julgado por utilizar a sua riqueza e redes para financiar o genocídio. No espaço de alguns meses, o massacre de motivações étnicas fez mais de 800.000 mortos, segundo as Nações Unidas, principalmente entre a minoria tutsi. "Neste contexto de guerra, o comportamento de Félicien Kabuga assume uma cor diferente; já não é um senhor da guerra, é um homem de negócios apanhado pelo caos do seu tempo", descreveu hoje o seu advogado, Emmanuel Altit. A acusação sustenta que Kabuga desempenhou um papel fundamental no genocídio, incluindo através do fornecimento de armas brancas, e enquanto dirigente da célebre Rádio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM), que emitiu os apelos ao assassínio dos tutsis. "O que teria motivado o frenesim de ação de Félicien Kabuga, esta atividade incessante cujo único objetivo, segundo o procurador, era a destruição de um grupo étnico”, questionou Altit. As acusações contra Félicien Kabuga são "incoerentes e contraditórias" e o procurador procura fazer dele "o arquétipo do culpado", afirmou o advogado. O julgamento de Félicien Kabuga teve início esta quinta-feira perante o Mecanismo Internacional chamado a exercer as funções residuais dos tribunais penais, responsável pela conclusão dos trabalhos do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR). O acusado, que se declarou inocente, não esteve presente nas audiências de quinta e de hoje, segundo o próprio, devido a um diferendo com o seu advogado. Kabuga encontra-se detido na prisão das Nações Unidas em Haia desde a sua detenção em 2020 perto de Paris, após 25 anos de fuga. É acusado de ter participado na criação da milícia hutu Interahamwe, o braço armado do regime genocida hutu. Em concreto, Kabuga enfrenta as acusações de genocídio, incitação direta e pública à prática de genocídio, e crimes contra a humanidade, incluindo perseguição e extermínio. O julgamento deverá ser retomado na próxima quarta-feira.