Especialistas acreditam que população africana não está a ser ouvida como deveria
Vários especialistas e líderes de programas de apoio a África avaliaram hoje que as vozes da população africana não estão a ser ouvidas como deveriam, acrescentando que muitas organizações não-governamentais (ONG) não atuam da melhor forma na região. No lançamento do relatório "Localizando a Ação Humanitária em África", Jacob Kurtzer, diretor da Agenda Humanitária do Programa África no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), questionou porque é que os esforços direcionados há décadas para o continente africano continuam sem obter o sucesso desejado e avaliou que a importância da localização não está a ser tida em conta. "De alguma forma, a localização tem sido embutida nas iniciativas humanitárias desde meados dos anos 1990. A Cruz Vermelha deu início ao movimento fundado na ideia das sociedades nacionais liderarem a resposta humanitária, mas, ao longo do tempo, à medida que o setor se formalizou, a ação humanitária ficou dominada por doadores ocidentais, atores e organizações não-governamentais sediados em Nova Iorque ou Genebra, e chegamos ao ponto onde estamos hoje, em que a ação humanitária é dominada por quem não trabalha diretamente nesse contexto", disse Kurtzer. De acordo com o especialista, têm-se registado várias tentativas de mudar esta realidade, mas não se manifestaram na escala e velocidade necessárias. Já Mvemba Phezo Dizolele, diretor do Programa África do CSIS e professor de estudos africanos, indicou que as "boas intenções" das ONG nem sempre levam bons resultados ao continente, dando como exemplo o conflito mineral no leste do Congo. "Aprendemos isso da pior maneira no passado, com a experiência. E uma dessas experiências foi o conflito mineral no leste do Congo, que trouxe muitas ONG e ativistas, mas que na maioria não tiveram em consideração as vozes congolesas, o que não foi positivo para o foco do problema", afirmou o docente. De acordo com Dizolele, cabe aos cidadãos que estão nas grandes capitais mundiais e que têm a oportunidade de falar com os líderes políticos, assumir essas "responsabilidades com seriedade e representar os desafios da forma correta". "É fácil diluir a narrativa, quando essa narrativa é de facto um ingrediente importante", disse, frisando a importância da localização. A necessidade de atores locais e nacionais estarem na vanguarda da resposta humanitária e dos esforços de recuperação é evidente para os especialistas do CSIS. Segundo este centro de investigação sediado em Washington, a situação é mais evidente em África, onde os Estados Unidos da América alocaram 8,5 mil milhões de dólares (81,8 mil milhões de euros) em assistência oficial ao desenvolvimento para 47 países e oito programas regionais em 2020. "Apesar dos milhares de milhões de dólares em assistência para África, os atores locais e nacionais recebem pouco desse financiamento. As vozes africanas são frequentemente excluídas dos círculos de tomada de decisão nas capitais dos doadores e dos próprios esforços de localização devido a regulamentações burocráticas, barreiras institucionais de longa data e agendas políticas", observou o CSIS. Para Nimo Hassan, diretora do Consórcio de ONG da Somália (SNC), as vozes africanas devem liderar as ações ao redor do mundo voltadas para África, uma vez que são as próprias organizações locais as primeiras a responder a crises e, por vezes, as únicas. Para a diretora do SNC, as organizações locais africanas têm um conhecimento e experiência que muitas vezes não são valorizados pelas entidades exteriores, frisando que a localização deve ser o centro das ações humanitárias e que "há imenso trabalho a ser feito nesse sentido". Por sua vez, Joseph Sany, vice-presidente do Centro de África do Instituto da Paz dos Estados Unidos (USIP), destacou a necessidade de se saber distinguir entre a periferia e os centros das cidades africanas, porque "muitas vezes, por uma questão de eficiência, ouvem-se erradamente vozes que não são as corretas, vozes das elites africanas que vivem nos centros, numa manipulação que acaba por beneficiar as pessoas erradas com os recursos humanitários, quando o problema está nas periferias". "São essas vozes das periferias que deveriam ser ouvidas. É importante saber o que realmente acontece a nível local. (...) Temos de nos focar em como fazer que as vozes africanas sejam ouvidas e integradas no processo", indicou. Outra das oradoras no lançamento deste relatório foi Zemede Zewdie, representante nacional dos Serviços de Socorro Católicos na Etiópia, que criticou o facto de ainda existir muito a ideia de que África é um continente que depende de terceiros. "Está ainda muito presente a ideia do colonialismo, mas nós já não somos dependentes há muito, apesar de precisarmos de fundos. E há problemas em conseguir que os atores internacionais se comprometam com fundos e ajudas", disse Zewdie.