França/Eleições: Distribuição de votos dos vencidos é incógnita da 2.ª volta
Emmanuel Macron e Marine Le Pen vão repetir no próximo dia 24 o duelo de 2017 para a presidência de França, resta a incógnita sobre o destino dos votos dos outros candidatos à primeira volta realizada no domingo. "As pessoas estão desgastadas (…) e têm a sensação que o próprio Macron, ao fazer implodir a posição moderada, criou a única alternativa que é ele ou a extrema-direita. Este é o sentimento de cansaço vivido por muita gente de esquerda e que cria uma incógnita para a segunda volta", afirmou Victor Pereira, professor na Universidade de Pau, em declarações à agência Lusa. O resultado que deu ao Presidente cessante, Emmanuel Macron, 27,84% dos votos e à candidata da União Nacional (extrema-direita), Marine Le Pen, 23,15% "não é uma surpresa" para o politólogo, mas Victor Pereira aponta para o facto de que 75% do eleitorado francês votou em três candidatos, quando havia 12 na corrida ao Eliseu, com a maior parte a conseguir apenas "migalhas" dos sufrágios. Serão agora estes eleitores que vão constituir o que em França se chama a 'reserva de votos' dos dois candidatos à segunda volta, sendo difícil saber para onde vão os cerca de 22% de votos obtidos pela esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon ou os quase 5% da de Valérie Pécresse (Os Republicanos, direita). "Mesmo se Pécresse, (o candidato ecologista Yannick) Jadot e (a socialista Anne) Hidalgo apelaram a votar em Macron e Jean-Luc Mélenchon pediu que nenhum voto fosse para Marine Le Pen, e ficou claro que o inimigo é a extrema-direita, os candidatos disseram, e é verdade, eles não são donos dos votos dos seus eleitores. Há muitos eleitores que não vão votar ou que votam na extrema-direita", considerou o investigador. Começa agora para Macron e Le Pen uma nova campanha onde terão se mostrar aos franceses algo que os dois têm evitado nos últimos meses. "Os dois candidatos que passaram à segunda volta foram os candidatos que menos se viram. Macron ainda é Presidente, há uma guerra e está à frente do Conselho da União Europeia e queria ficar acima do debate. Já Marine Le Pen beneficiou da atenção que teve Eric Zémmour, conseguindo ter uma posição de banalização porque Zémmour era o papão", explicou o politólogo. Ex-jornalista e comentador político, Zémmour criou o seu próprio partido de extrema-direita, Reconquista, e durante alguns meses disputou com Marine Le Pen a preferência dos franceses desta área política. Emmanuel Macron já está hoje na estrada, visitando o Norte do país, tendo previsto pelo menos mais três dias de campanha no terreno até ao fim desta semana e um grande comício político em Marselha. No dia 20 de abril à noite acontece o importante debate entre as duas voltas das presidenciais, um embate que em 2017 terá valido a presidência a Emmanuel Macron face a uma fraca prestação de Marine Le Pen. "Ela nem precisa de ganhar (o debate), e claro que ninguém ganha porque cada campo vai reclamar essa tal vitória, mas quem ainda não sabe em quem votar pode ficar convencido pelo facto de ela não falhar completamente como em 2017. Acho que ela vai presidencializar-se", indicou Victor Pereira. Quanto aos partidos em queda, como o Partido Socialista, que obteve 1,75%, e Os Republicanos, com 4,78%, o politólogo considera que não é o seu fim, já que logo a seguir às presidenciais vêm as eleições legislativas (em junho), onde podem esperar eleger vários deputados porque mantêm uma importante força local. "As eleições presidenciais são muito personalizadas, é tudo à volta do candidato, logo, imagino que estes partidos não vão ter assim tão maus resultados nas legislativas. Há uma discrepância entre os resultados que Macron e Le Pen têm agora e nas restantes eleições. As eleições regionais e municipais foram um fracasso para Macron", lembrou Victor Pereira. Segundo os resultados definitivos hoje divulgados pelo Ministério do Interior francês, a abstenção na primeira volta das presidenciais ficou em 26,31%, tendo votado 35,14 milhões dos 48,75 milhões de eleitores inscritos. O Presidente francês poderá ser reeleito na segunda volta, de acordo com sondagens realizadas logo após a primeira volta. Macron conta com entre 54% e 51% das intenções de voto contra 46%-49% para Le Pen, o que significa que a disputa poderá ser muito mais renhida do que há cinco anos, quando o Presidente ganhou com 66,1% dos votos e a candidata da União Nacional obteve 33,9%.