Mali: UE suspende formação e treino de militares no país mas mantém-se no Sahel
A União Europeia (UE) vai pôr fim às missões de formação e treino do exército e da guarda nacional do Mali, mas irá deslocar-se para países vizinhos, mantendo-se no Sahel, anunciou hoje o chefe da diplomacia europeia. "Suspendemos as missões de formação e o treino das forças armadas e da guarda nacional, mas vamos continuar as formações sobre as leis da guerra, porque é preciso que os militares saibam que a guerra tem leis e regras do jogo", explicou Josep Borrell no final de uma reunião com os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE no Luxemburgo. Borrell disse ainda que a União Europeia irá deslocar-se para os países vizinhos, porque "o Sahel continuará a ser prioritário". "Os acontecimentos forçaram-nos a tomar esta decisão. Não obtivemos garantias, por parte das autoridades de transição, sobre a interferência da companhia Wagner, que começa a ser responsável por acontecimentos tristes que deixaram dezenas de mortes no Mali", acrescentou, referindo-se à companhia russa de mercenários. O chefe da diplomacia europeia justificou também a decisão com massacres como o de Moura (centro do país), entre 27 e 31 de março, segundo várias fontes cometido por soldados malianos apoiados por agentes estrangeiros. Segundo a organização Human Rights Watch, cerca de 300 pessoas morreram em Moura, número que a junta militar reduziu para 203. "Não podemos estar a colaborar com algo que podemos lamentar muito. O que aconteceu em Moura, não podemos estar a treinar militares que podem estar a fazer parte deste tipo de coisas", disse, apelando às autoridades do Mali que permitam à missão da ONU no país (Minusma) investigar o ocorrido. A Alemanha quer retirar os seus militares presentes no Mali ao abrigo da missão de formação da UE e da missão das Nações Unidas no Mali, a Minusma. A ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, prevê reunir-se com o chefe da junta maliana durante uma deslocação ao Mali esta semana, durante a qual quer “ter uma ideia precisa da situação política e de segurança" para decidir se mantém ou não as tropas no terreno, explicou um porta-voz do Ministério. As forças armadas alemãs têm cerca de 300 soldados na missão de formação da UE no Mali (EUTM), e 1.100 na Minusma, que conta 14.000 militares e polícias. "A questão é saber como é que a Minusma vai poder continuar a trabalhar. Se é para ficar cego e surdo no quartel, não é necessário ficar", disse Josep Borrell. Os militares tomaram o poder no Mali em dois golpes de Estado: em agosto de 2020 e em maio de 2021. A missão europeia de treino militar no Mali (EUTM-Mali) foi lançada em fevereiro de 2013 pela União Europeia para treinar o exército maliano na luta contra o 'jihadismo'. Está estacionada na capital maliana, Bamako, e no campo de treino de Koulikoro, a 60 quilómetros da capital, onde os soldados malianos são treinados em várias especialidades. A EUTM-Mali não participa em atividades de combate e não acompanha as unidades malianas nas respetivas operações. Conta com o empenho de cerca de 1.200 militares europeus, entre os quais 15 portugueses, sendo a Espanha, com 530 efetivos, o seu maior contribuinte. Vinte e dois países da União Europeia contribuem para a missão, assim como a Geórgia, a Moldávia e o Montenegro. A Minusma foi estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU em abril de 2013 para ajudar as autoridades de transição do Mali a estabilizar o país e garantir a segurança e proteção da população civil. Portugal tem atualmente dois efetivos militares empenhados na MINUSMA. Nos mais de oito anos que a MINUSMA leva destacada no Mali, tornou-se a missão das Nações Unidas com o maior número de baixas (260 mortos e mais de 400 feridos graves), em resultado de ataques contínuos por grupos jihadistas.