2022-04-11 18:41:00 Jornal de Madeira

França/Eleições: Resultado da 2.ª volta pode depender da relação com Mélenchon e Putin

Uma segunda volta das presidenciais francesas entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen era esperada pelos analistas ouvidos pela Lusa, cujas expectativas se centram agora na relação dos candidatos com duas figuras: Jean-Luc Mélenchon e Vladimir Putin.   “A queda de todos os partidos tradicionais já era esperada”, mas “a verdade é que os velhos partidos franceses estão, todos eles, a atravessar um período muito difícil”, disse Paulo de Almeida Sande, antigo diretor do gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, sublinhando que o resultado das eleições presidenciais de domingo em França mostra uma espécie de “'vitória' dos extremos”. Uma visão bastante próxima da de Francisco Seixas da Costa, ex-embaixador de Portugal em França (2009-2013), para quem não foi surpresa a passagem à segunda volta do Presidente francês cessante e da candidata da União Nacional (extrema-direita), destacando antes a demonstração de que “a França está polarizada a três níveis, no centro com Macron e depois nos dois extremos [da esquerda e da direita]”. Segundo os resultados definitivos hoje divulgados pelo Ministério do Interior francês, Emmanuel Macron venceu a primeira volta das presidenciais francesas, realizadas no domingo, com 27,84% dos votos, seguido de Marine Le Pen, que obteve 23,15%. Embora nenhum dos analistas arrisque apostar na vitória definitiva de um dos candidatos na segunda volta das presidenciais, marcada para 24 de abril, Paulo de Almeida Sande vê no candidato que ficou com o terceiro lugar - o representante do movimento 'França Insubmissa', da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon - um papel determinante. “A questão é saber em quem vão votar estes milhões de cidadãos que votaram em Mélenchon", que conseguiu 21,95% dos votos, considerou, lembrando que “Mélenchon, nas últimas eleições, não recomendou o voto em Macron. Pelo contrário”. No entanto, para Almeida Sande, este representante da esquerda radical poderá ter de tomar uma posição diferente agora, “transformando um voto que seria de protesto num voto contra a extrema-direita”. Segundo este analista “é disso que provavelmente vai depender o resultado desta eleição”, mas, para isso, Macron “terá também de conversar com Mélenchon e de encontrar o tom certo, [além de que] os eleitores de esquerda terão de se mobilizar para votar contra Le Pen - não necessariamente a favor de Mácron”. O candidato de esquerda radical pediu no domingo aos seus apoiantes para, na segunda volta, não darem “um único voto a Marine Le Pen". Figura externa à disputa, mas que poderá influenciar o seu resultado, é, no entender dos dois analistas, o Presidente russo, Vladimir Putin. “Eles vão para esta segunda volta numa maior igualdade do que tinham em 2017 [quando os dois candidatos também disputaram a segunda volta das presidenciais], embora eu me incline a pensar que, no saldo final, Macron acabará por ganhar”, afirmou Seixas da Costa, lembrando que Marine Le Pen “teve declarações, no passado recente, um pouco comprometedores relativamente a Vladimir Putin”. Numa altura em que a ofensiva militar da Rússia na Ucrânia abala toda a Europa, esta proximidade pode ser fatal, considera o antigo embaixador. “A opinião pública francesa em geral é profundamente crítica da posição da Rússia na Ucrânia. Marine Le Pen tem afirmações de grande proximidade [a Putin]” e isso poderá ser utilizado como arma por Emmanuel Macron. “Não sei se Macron vai por aí, mas pode haver uma polarização utilizando esse argumento”, considerou. Por outro lado, Le Pen tem uma vantagem, admitiu Seixas da Costa, referindo que a representante da extrema-direita “representa hoje em França uma espécie de partido da raiva, partido da cólera”, pelo que pode conquistar “pessoas que estejam descontentes com a quebra do seu nível de vida”. Aliás, acrescentou o analista, “Le Pen passou o tempo [da campanha] a falar do nível de vida e das medidas que tem para melhorar o nível de vida. [Nesse tema], Macron está um pouco à defesa porquanto é responsável, ao longo destes cinco anos, precisamente pelo nível de vida do qual as pessoas se queixam”. Ainda assim, o ex-embaixador em França defende que Marine Le Pen ainda tem de convencer o eleitorado – “embora já tenha convencido uma parte nesta primeira fase - de que mudou verdadeiramente de perfil, de que tem um novo discurso” e que já não se concentra exclusivamente naquilo que “era a sua agenda tradicional: a imigração e a questão da segurança”. Para Paulo de Almeida Sande, os próximos dias serão de alguma tensão, até porque há muita gente preocupada, a começar pela União Europeia e pela NATO. “Sabemos que Le Pen é uma apoiante - embora isso tenha estado escondido nestes últimos meses - de Putin. Foi, aliás, ajudada por Putin, aparentemente por verbas vindas da Rússia e, portanto, estes 15 dias vão ser de grande nervosismo em muitas capitais", referiu o analista. “Um e outro - Emmanuel Macron e Marine Le Pen - vão ter de dar o seu melhor. Provavelmente Macron vai ter de mudar de estratégia, talvez falar mais para as pessoas, falar mais das coisas que lhes interessam diretamente - do custo de vida, dos salários, da inflação, enfim, de todas aquelas coisas que apoquentam os franceses e que os fizeram votar nos partidos e nos candidatos anti-sistema. Vamos ver o que vai acontecer”, concluiu. De acordo com o Ministério do Interior francês, a abstenção na primeira volta ficou em 26,31%, tendo votado 35,14 milhões dos 48,75 milhões de eleitores inscritos. O Presidente francês poderá ser reeleito na segunda volta, segundo com sondagens realizadas logo após a primeira volta. Macron conta com entre 54% e 51% das intenções de voto contra 46%-49% para Le Pen, o que significa que a disputa poderá muito mais renhida do que há cinco anos, quando o Presidente ganhou com 66,1% dos votos e a candidata da União Nacional obteve 33,9%.

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