Grupos armados do norte do Mali e junta militar no poder assinam acordo para dissipar tensões
Grupos armados no norte do Mali, signatários de um acordo de paz importante com Bamaco, chegaram a acordo com a junta militar no poder para o alívio das tensões entre as partes, informou hoje um porta-voz daqueles grupos. Os grupos armados - nacionalistas tuaregues e árabes, que se rebelaram contra o governo central após a independência e as insurreições ‘jihadistas’ iniciadas em 2012, agrupados na Coordenação dos Movimentos Azawad (CMA) - são atores centrais na crise do Mali e o governo dominado pelos militares tem todo o interesse em não os alienar. No xadrez do conflito no Mali constam ainda os lealistas da Plataforma, que combatem a CMA, e outros grupos mais pequenos. A CMA e a Plataforma são signatárias do Acordo de Paz de Argel com o então Governo do Mali em 2015, mas a implementação desse acordo, ainda considerado essencial para a estabilização do país, não apenas foi interrompida com tomada do poder pela junta militar em agosto de 2020 como as tensões aumentaram. Grande parte do norte do Mali mantém-se sob controlo dos grupos armados. Agora, os grupos armados e o governo liderado pela junta militar chegaram a um acordo em Roma na quarta-feira, que "facilitará as ligações", na expressão de Moussa Ag Acharatoumane, porta-voz da estrutura que reúne os vários grupos, em declarações à agência France-Presse. O Estado "compromete-se" através deste acordo a ações concretas para a implementação do acordo de Argel, disse um dos seus signatários à agência noticiosa, sob condição de anonimato. O texto do acordo não foi ainda divulgado. Os grupos armados criaram uma estrutura, denominada Quadro Estratégico Permanente (QEP), em maio de 2021, já em Itália, para falar a uma só voz, mas as relações entre o QEP e as autoridades em Bamaco degradaram-se entretanto. Em outubro último, o ministro maliano para a Reconciliação no governo de transição, coronel-major Ismaël Wagué, pediu ao corpo diplomático para não reconhecer o QEP como entidade legítima nas conversações de paz. Em dezembro, os grupos armados boicotaram consultas organizadas pela junta militar que tinham como propósito ajudar a definir a duração e as ações a levar a cabo durante um período de transição que conduza o país a um regime civil. Nos termos do acordo agora alcançado em Itália, o Estado torna-se membro do QEP, habilitado a exercer, como os restantes membros, a sua presidência rotativa, segundo Ag Acharatoumane. As conversações de Roma, nas quais participou Ismaël Wagué, foram organizadas por uma organização não-governamental italiana, Ara Pacis, que não esteve disponível para quaisquer comentários. Os ‘jihadistas’, que inicialmente combateram as forças malianas ao lado dos rebeldes tuaregues e árabes antes de se voltarem contra estes, não estão abrangidos pelo acordo de Argel, e desde então alargaram as suas atividades ao centro do Mali e aos países vizinhos Burkina Faso e Níger.