2021-11-03 18:54:00 Jornal de Madeira

Etiópia: Conflito em Tigray decorre há um ano e continua sem fim à vista

O conflito na região etíope de Tigray, que provocou milhares de mortos e graves violações dos direitos humanos, completa hoje o primeiro ano, com as forças rebeldes a aproximarem-se cada vez mais da capital, Adis Abeba. “O país enfrenta, potencialmente, a balcanização se a comunidade internacional não tomar medidas”, afirmou o diretor do Instituto Internacional para o Corno de África, Hassan Khannenje, também especialista em conflitos, citado pela agência noticiosa Efe. De acordo com Khannenje, a que era até agora considerada uma força estabilizadora da região conturbada do Corno de África está à beira da “desintegração”. Numa mensagem hoje divulgada, assinalando o primeiro ano do conflito, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, acusou os rebeldes de “mancharem” essa reputação estabilizadora regional com um “estratagema para preparar o caminho para que o destino da Etiópia seja o da Líbia e da Síria”, remetendo para os conflitos nestes países. Em 03 de novembro de 2020, um ataque a uma base militar federal, que a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF, na sigla em inglês), o partido eleito e no poder no estado, descreveu como tendo sido em autodefesa, levou Abiy Ahmed a mobilizar o Exército para a região no norte do país no dia seguinte. Até à eleição de Abiy Ahmed como primeiro-ministro, em 2018, a TPLF era a principal força da coligação que liderou o país desde o derrube do regime comunista, em 1991. A agenda reformista e encorajadora que caracterizou a entrada de Abiy Ahmed inclui a assinatura de um histórico acordo de paz com a vizinha Eritreia, valendo-lhe o Prémio Nobel da Paz em 2019. Khannenje apelidou de “revolucionária” a ascensão de Abiy Ahmed ao poder, apontando que este “não representa exatamente (…) ‘o status quo’”, mas apontou que o chefe do Governo etíope cometeu “erros que o isolaram e lhe tiraram a credibilidade”. Após uma escalada da tensão, intensificada pelo adiamento das eleições pelo executivo federal devido à pandemia da covid-19, o Governo regional realizou as suas próprias eleições regionais – consideradas ilegais por Adis Abeba –, que acabaram por culminar com o conflito iniciado em novembro de 2020. O equilíbrio do poder tem-se alterado desde o início do conflito. Na terça-feira, o executivo federal decidiu declarar o estado de emergência face ao perigo iminente de uma possível incursão rebelde na capital, Adis Abeba. Inicialmente superados pela coligação das tropas federais – que contaram com o apoio de soldados eritreus e da região vizinha de Amhara –, os rebeldes recuperaram terreno mais tarde. O diretor do Instituto Internacional para o Corno de África atribui esta recuperação à familiarização das tropas rebeldes com a “guerra de guerrilha e a topografia da região”. Abiy Ahmed declarou um “cessar-fogo humanitário unilateral” em junho, levando o Exército federal a retirar-se da maioria da região. Desde então, o conflito aumentou a sua volatilidade, com as movimentações dos rebeldes a tornarem-se regulares e a expandirem-se para as regiões limítrofes de Amhara e Afar. O conflito originou também uma crise humanitária, com quase sete milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar, segundo dados das Nações Unidas emitidos no mês passado. A ONU critica também um “bloqueio da ajuda humanitária” por parte das autoridades federais. Ainda assim, os números efetivos da guerra são desconhecidos e limitados pelos bloqueios às telecomunicações. De igual forma, as forças eritreias foram acusadas de conduzir vários massacres e crimes sexuais. Apesar da crescente pressão internacional para o diálogo, as forças rebeldes e as forças federais continuam a procurar uma vitória militar. “Hoje é o dia em que prometemos enterrar o nosso inimigo que queria humilhar e destruir a Etiópia”, afirmou hoje o primeiro-ministro etíope num discurso perante militares em Adis Abeba.

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