Especialistas da ONU pedem investigação de morte de crianças indígenas no Canadá
Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas pediram hoje ao Canadá e ao Vaticano que investiguem a descoberta de uma vala comum com os restos mortais de 200 crianças numa escola indígena em território canadiano. Os restos mortais de 215 crianças, algumas com apenas 3 anos de idade, vítimas de abusos, foram encontrados enterrados no local daquela que já foi a maior escola católica residencial indígena na província canadiana da Colúmbia Britânica. Os restos mortais das crianças foram detetados com a ajuda de um radar de penetração no solo e é possível que venham a ser detetados mais corpos, porque algumas zonas da escola ainda não foram revistas, segundo as autoridades canadianas. Hoje, num comunicado, um grupo de especialistas em direitos humanos pediu ao Vaticano e às autoridades do Canadá para que sejam investigadas “as circunstâncias e responsabilidades à volta dessas mortas, incluindo exames forenses dos restos mortais” das crianças desaparecidas. Os especialistas também pediram ao Governo para que as investigações fossem estendidas a outros antigos internatos para crianças indígenas no Canadá e, dirigindo-se à Igreja Católica, solicitaram que seja fornecido acesso gratuito aos seus arquivos e que sejam conduzidas investigações internas sobre os abusos cometidos naqueles estabelecimentos de ensino. Entre os signatários da petição estão, entre outros, os relatores especiais da ONU sobre Verdade, Justiça e Reparação (Fabián Salvioli), Direitos Indígenas (Francisco Cali Tzay) e contra a exploração infantil (Mama Fatima Singhateh). Um relatório da Comissão de Verdade e Reconciliação, datado de há mais de cinco anos, já tinha revelado os maus-tratos infligidos às crianças indígenas nessas instituições. Esse relatório dizia que pelo menos 3.200 crianças morreram devido a abusos e a negligência, e menciona que havia relatos de pelo menos 51 mortes apenas na escola de Kamloops, entre 1915 e 1963, um número que agora se percebe ficar aquém da realidade. O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, John Horgan, já disse que ficou “horrorizado e com o coração partido” ao saber da descoberta, considerando-a uma tragédia de “proporções inimagináveis” que destaca a violência e as consequências do sistema escolar residencial. Num comunicado emitido em maio, Rosane Casimir, líder da Primeira Nação Tk’emlups te Secwépemc, já tinha dito que se trata de uma "perda impensável, que foi comentada, mas nunca documentada, na escola residencial indígena de Kamloops", uma das instituições que acolhiam crianças retiradas das famílias na região. Numa mensagem nas redes sociais, também em maio, a Autoridade de Saúde das Primeiras Nações disse que a descoberta das crianças deixou uma marca "extremamente dolorosa", que "terá um impacto significativo na comunidade Tk'emlúps e nas comunidades abrangidas por esta escola residencial”.