2020-11-25 19:40:00 Jornal de Madeira

ONU exige ação contra violência machista que classifica de “pandemia na sombra”

A ONU exigiu hoje ações decisivas para proteger as mulheres e acabar com a “pandemia na sombra” da violência machista que, anualmente, provoca dezenas de milhar de vítimas e que tem aumentado fortemente durante a pandemia de covid-19. “A crise da covid-19 expôs ainda mais a violência contra as mulheres e raparigas como uma emergência global que requer medidas urgentes”, sublinhou o secretário-geral das nações Unidas, António Guterres, numa mensagem por ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. Segundo dados das Nações Unidas, durante a pandemia, os níveis da violência, em particular a doméstica, “aumentaram de forma dramática” em todo o mundo, elevando ainda mais os números que, já em si, “são também dramáticos”. Em 2017, o ano mais recente de que a ONU dispõe dados completos, estima-se que 87.000 mulheres foram assassinadas intencionalmente em todo o mundo, 50.000 delas mortas às mãos de familiares ou do marido. À escala mundial, estima-se que 35% das mulheres já tenham sido alvo de alguma violência física ou sexual, dados que não incluem o assédio e que, segundo alguns estudos nacionais, poderão atingir o dobro (70%). Para as Nações Unidas e também para muitas organizações de mulheres, os últimos meses das crises pandémica do novo coronavírus e económicas só vieram agravar o panorama, sobretudo como efeito das medidas de confinamento. A ONU apelida-a como a “pandemia na sombra”, uma crise “sem precedentes” de violência contra as mulheres, que não está a receber “a mínima atenção” face à que se presta à emergência sanitária. “Temos observado a diferença entre a forma como as nossas sociedades e os nossos serviços públicos respondem a cidadãos que se apresentam com uma doença potencialmente mortal e aqueles que pedem ajuda face aos agressores que ameaçam as suas vidas ou saúdes”, lamentou, por seu lado, a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka. Nalguns países, segundo a ONU, o número de chamadas telefónicas de pedidos de ajuda quintuplicou durante os primeiros meses da pandemia de covid-19, enquanto que, noutros, acabou por se reduzir pelas dificuldades que as vítimas têm para telefonar enquanto confinadas em conjunto com os autores dos maus tratos. As projeções tornadas públicas pelas Nações Unidas indicam que, por cada três meses de confinamento, mais 15 milhões de mulheres são afetadas pela violência masculina. “Uma das coisas que temos aprendido com a pandemia é que o lar não é um local seguro para tantas mulheres e raparigas que são alvo da violência doméstica”, destacou a atriz australiana Nicole Kidman, embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres, numa intervenção apresentada hoje em vídeo. Até agora, cerca de meia centena de países integraram a proteção e a resposta à violência baseada no género nos planos de combate à covid-19, com alguns deles a tomar medidas para reforçar os serviços que se prestam às sobreviventes. Nesse sentido, António Guterres sublinhou a necessidade de obter financiamento “urgente e flexível” às organizações de defesa dos direitos das mulheres, que são quem, amiúde, atua na primeira linha da resposta. “É vital que os serviços para as sobreviventes sejam considerados essenciais e se mantenham abertos, com recursos adequados e medidas para as apoiar nos setores sanitários e sociais”, frisou o secretário-geral da ONU. Ao mesmo tempo, Guterres realçou que o mundo não pode centrar-se na ação apenas depois dos atos de violência, devendo igualmente focar-se, mas antes, na “redução do risco”. Para Guterres, a ONU defende, entre outras medidas, o apoio económico às mulheres, o envio de mensagens positivas sobre a igualdade do género, facilitar o acesso a serviços de saúde mental e melhorar a recolha de dados para que se possa conhecer mais sobre o fenómeno. Além disso, acrescentou, devem ser promovidos intercâmbios culturais, para acabar com os estereótipos, e concretizar transformações nos sistemas de Justiça, que transmitam confiança às mulheres na hora da denúncia e melhorar a resposta por parte das autoridades. Na mensagem sobre o dia internacional, Mlambo-Ngcuka denunciou todos esses problemas utilizando uma comparação com a pandemia de covid-19. “Se alguém fizer um teste para o coronavírus, ninguém lhe pergunta o que estava a vestir quando foi infetado ou se bebia álcool. Tem-se a garantia de que o teste será examinado num laboratório, bem como uma probabilidade razoável de receber atenção médica. A resposta não vai depender de acreditarem na pessoa. Mas essa pessoa não vai sentir tanta vergonha a ponto de nem mesmo tentar ir às autoridades”, resumiu.  

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