2014-11-20 08:00:29 Tribuna da Madeira

Podemos, ou não, usar o verbo “constatar”? Porquê?

No programa da TSF-Madeira (100 FM) intitulado ESTRADA MONUMENTAL de Juvenal Xavier de dia 8 de Novembro, soube, através de Policarpo Gouveia, que deixou de haver uma pista de atletismo no Funchal: uma notícia que me tinha passado, literalmente, ao lado. A Associação de Atletismo da Madeira, tendo, entretanto, já encontrado um sítio para treinar, precisa de uma verba substancial para concretizar esta pista, indispensável a uma capital como o Funchal. Fiquei, também, a saber que, no jornalismo, há uma recomendação explícita: não usar o verbo “constatar” porque é um termo de origem francesa, havendo vários outros que são portugueses e se podem empregar em vez daquele. Até que ponto “constatar” é um termo de origem francesa? Até que ponto os seus sinónimos (“verificar”, “averiguar”, etc.) são portugueses? Reflectir sobre tudo, incluindo detalhes linguísticos como este, é um exercício que aprecio bastante porque coloca problemas que continuarei, aqui, a propor. Isto não significa que saiba tudo ou que o assunto fique, na íntegra, resolvido. Resumidamente, esta questão será do domínio da Etimologia e da História da Língua, ligando-se ao Jornalismo. Ensinam os historiadores da Língua Portuguesa que o nosso idioma se formou na faixa ocidental da Península Ibérica, a partir do Latim Vulgar, coloquial e popular, recebendo a influência de línguas de substrato e de superstrato. Foi-se formando ao longo dos séculos. É viável dizer que este processo ainda não está concluído porque vai, continuamente, evoluindo ao sabor dos usos que as diversas gerações vão fazendo. As primeiras descrições gramaticais datam do século XVI, embora não se tivessem imposto, nem generalizado. O Latim Clássico era a língua oficial da escolarização e, com o Renascimento, este idioma ganhou novo fulgor, importando o Português daquele período, que já se escrevia e imprimia, um considerável número de vocábulos. O Castelhano foi uma forte influência durante os três reinados filipinos e, depois, com o Iluminismo Enciclopédico e a Revolução Francesa, o léxico foi-se enriquecendo com empréstimos linguísticos franceses. Estes são alguns detalhes de uma história linguística de contactos permanentes. Pode uma língua manter-se intocável, isto é, não assimilar termos estrangeiros, nestas circunstâncias? Duvido. Não tenho uma visão purista das línguas. Todavia, reconheço a inutilidade de usar um termo estrangeiro, se a língua já possui equivalentes. Por exemplo, em alguns programas de CUIDADO COM A LÍNGUA! da RTP, o apresentador despede-se (despedia-se?) com um “Ciao!” (de origem italiana), quando existem em Português inúmeras fórmulas: “Adeus!”, “Até breve!”, “Até uma próxima oportunidade!”, “Despeço-me. Fique bem!”, etc.  No último programa que vi, já optou por um “Até lá!”, o que me parece mais adequado. Será este caso semelhante ao de “constatar”? Que revelam os dicionários do tira-dúvidas a propósito deste verbo? Para obter mais informação, vou procurar as definições do verbo “constatar” e do substantivo “constatação”. O termo “constatar”, considerado francês, tem origem no Latim, isto é, «der. do lat. constat, f. impes. de 3ª p.s. pres.ind. do v.lat. constáre ‘constar’» (cf. tira-dúvidas). O verbo “verificar”, segundo o HOUAISS, tem a sua etimologia em «lat. verifico,as,avi,atum,are ‘estabelecer como verdade, verificar’». Portanto, “constatar” e “verificar” têm, globalmente, origem latina. O primeiro foi usado na Língua Francesa e a ela adaptado, passando, a partir desta, para a Língua Portuguesa, embora contra a vontade dos puristas. O segundo, possivelmente mais empregue, transitou, quase tal e qual, para as duas línguas. Precisaria de, pelo menos, um dicionário de Latim para observar se, na origem, haveria alguma diferença de significação entre eles. Neste momento, não tenho nenhum comigo. Divagando um pouco, para mim, “verificar” e “constatar” não significam bem o mesmo. Quando “verifico algo”, estou envolvida num trabalho (“Verifico se os documentos estão no sítio.”). Será sinónimo de “comprovar”, “atestar” ou “certificar-se”. Quanto “constato algo”, posso não estar envolvida num trabalho, mas observo um facto ou tiro uma conclusão do que foi feito (“Constato que os documentos não estão no sítio.”). Pela proximidade semântica, poderá não se fazer a diferença, mas, no meu entender, não são totalmente equivalentes. Parece-me que, primeiro, é necessário verificar (fazer um trabalho de comprovação) para, depois, poder constatar (tirar ilações ou conclusões). A maioria dos dicionários do tira-dúvidas identifica “constatar” como um galicismo (um francesismo) considerando-o dispensável por corresponder a “verificar”, “averiguar”, etc. Eu tenho algumas reservas quanto a esta sinonímia nada recomendada pelos puristas. Seria um assunto interessante para um trabalho de investigação, o que não tem lugar nesta crónica. Já sabemos que é fácil o que se entende e complexo, ou discutível, o contrário. Portanto, para um provável tira-teimas, nada melhor que um breve tira-dúvidas porque as dúvidas são o primeiro passo, mas não podem ser o último. Podemos, ou não, usar “constatar”? Porquê? Se o que se quiser dizer é “verificar”, “comprovar”, “atestar” ou algo que implique testes e provas, é dispensável. Se o que se pretende transmitir remete apenas para uma ilação, uma observação, uma conclusão, que se tira de algo que foi, anteriormente, verificado, creio que se pode porque, nesse caso, terá um sentido específico. Eu não verifiquei a inexistência da pista de atletismo no Funchal, mas fiquei a saber e constatei (sem comprovar, atestar, etc.), no “passeio que dei” pela ESTRADA MONUMENTAL, que faz falta à capital da Região Autónoma da Madeira.

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