“Fui acusado de degradar o conhecimento histórico mas aproximei os madeirenses da sua História”
2014-10-22 08:00:35 Tribuna da Madeira

“Fui acusado de degradar o conhecimento histórico mas aproximei os madeirenses da sua História”

A História da Madeira e sua perceção e conhecimento por parte dos madeirenses foi o assunto escolhido para o Grande Tema desta edição. Para nos ajudar a clarificar algumas questões convidamos Alberto Vieira, Diretor do Centro de Estudos de História do Atlântico e Emanuel Janes, investigador daquela Direção de Serviços da Secretaria Regional da Cultura, Turismo e Transportes. Tribuna – Tendo em conta a vossa experiência, consideram que os madeirenses têm curiosidade sobre a História da Madeira? Alberto Vieira – Na verdade toda a gente tem muito interesse na sua terra e por tudo o que se relaciona com esta. Isto é uma ideia universal, há um interesse. No entanto, aqui na Madeira, por força de várias circunstâncias, durante muito tempo a História praticamente não existiu. Tribuna – E que circunstâncias foram essas? Alberto Vieira – Até aos anos 80 dava-se pouca importância à História e também não havia muita gente a fazer História. Não havia historiadores de verdade e isso em certa medida fazia com que se tivesse uma ideia muito distante da História. Eu normalmente quando falo nesta situação, destaco dois momentos muito importantes. Um é a década de oitenta, em que o fenómno da autonomia foi um fator muito importante no sentido de um boom cultural, nomeadamente publicações, que também teve impacto em termos da História. Que levou a uma grande afirmação da História e acima de tudo a um grande interesse das pessoas pela História. Vim para para o Centro de Estudos de História do Atlântico em 1985 e desde então conheço muito a realidade da historiografia madeirense, não só da obra, como do impacto e do interesse da população. Na verdade existia a ideia de que a História era algo estranho, algo que as pessoas muitas vezes não entendiam e eu fiz uma coisa (que agora vou fazer num segundo momento, a outro nível) no sentido de aproximar a História do madeirense. Por exemplo, com as crónicas que fiz na imprensa. Fui o primeiro a fazê-lo, fui acusado de estar a degradar o conhecimento histórico, mas depois toda a gente entendeu que aquele era o caminho. E todos fizeram o mesmo. Os mesmos que me acusaram de estar a vulgarizar a História acabaram todos por escrever nas mesmas páginas e nos mesmos sítios que eu escrevi. Porque na verdade aquele era o caminho. A História da Madeira necessitava de um processo de vulgarização. Recordo nos anos 80 e 90 que tudo o que se publicava na imprensa local relacionado com a História tinha uma grande reciprocidade. Há um director, que não vou dizer o nome, que me telefonava com frequência e dizia “arranje-me uns trabalhinhos porque isto é a única coisa quase que segura o jornal”. Havia uma grande apetência, uma grande curiosidade, porque a História praticamente estava esquecida e escondida e nós, com a publicação dos textos de divulgação, contribuimos para fazer com que esta chegasse até às populações. Havia o problema de a documentação histórica pertencer a meia dúzia e o conhecimento da História era também de meia dúzia. Tirando o ‘Elucidário Madeirense’ e as ‘Ilhas de Zargo’, pouco ou nada havia de História. Acho que nos últimos anos e a partir daquela altura fez-se um trabalho muito importante no sentido da “vulgarização” da História. E foi o caminho certo, porque os franceses também o fizeram na década de 60 e 70, fizeram as grandes teses, algumas com 30 volumes. E depois fizeram uma coisa que foi o trabalho de divulgação dessas teses e desse conhecimento, que teve grande sucesso. O resultado foram várias coleções em que pegavam nos conhecimentos extraídos das suas teses e faziam textos de grande divulgação. Foi assim que a História se tornou, em França e também em Portugal, num tema de sucesso editorial. Neste momento estou a idealizar um projeto, porque precisamente acho que é importante um processo de “vulgarização” através de pequenos estudos de divulgação. Temos que fazer o que os franceses fizeram nos anos 60 e 70, pegar nos grandes temas que são tratados formalmente, de uma forma chata e aborrecida que não permite uma leitura a um cidadão comum, e torná-los acessíveis a este numa leitura de comboio, de autocarro, viagem de avião e porque não de praia? Conto, no próximo ano, iniciar um projeto nesse nível e penso que vai ser uma proposta de sucesso. Por exemplo, eu que já escrevi muito sobre o vinho, posso escrever dois ou três livros sobre este tema, com uma linguagem muito acessível e com muitas ilustrações, de forma a atrair a atenção das pessoas. Porque há aspetos que, quanto a mim, são muito penalizadores na divulgação do conhecimento científico. Um é o aparato crítico (que são as notas, os quadros, a bibliografia, e a documentação) que é essencial para o investigador e para a investigação avançada, mas para um cidadão comum essa investigação não interessa. E é isso que eu penso que nos falta em Portugal, abolir a grande barreira que existe entre os historiadores e o público. Normalmente em Portugal os historiadores escrevem para eles, não para o público. Não têm um público. Acho que temos que criar, como já fizemos nos anos 80, esse público que se interessa pela História, e fazê-lo através de pequenos textos. É chegada a oportunidade de criarmos várias coleções de textos, para esse público que eu considero que é ávido destes temas e destas leituras. Em certa medida, o aspeto […]

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