Veterano negro da guerra do Vietname recebe medalha de honra 60 anos depois de ter sido recomendado
Quase 60 anos após ter sido recomendado pela primeira vez o coronel aposentado Paris Davis, um dos primeiros oficiais negros a liderar uma equipa de Forças Especiais em combate no Vietname, receberá hoje a prestigiada Medalha de Honra. A distinção é o maior reconhecimento por atos de bravura. O reconhecimento atrasado para Davis, de 83 anos e residente na Virgínia, acontece depois da sua recomendação para a medalha se ter perdido, reenviada e novamente perdida. Foi preciso esperar por 2016 – 50 anos depois de Davis arriscar a vida para salvar alguns dos seus homens no combate contra os norte-vietnamitas – que um grupo voluntário de advogados recuperou e reenviou o processo. Alguns dos apoiantes de Davis acreditam que o racismo explica o atraso, mas Davis não alimenta a ideia e diz apenas que desconhece por que razão demorou para que o seu ato de heroísmo fosse reconhecido. “Agora estou impressionado”, disse hoje o ex-militar à Associated Press, em entrevista na véspera da cerimónia na Casa Branca, onde o Presidente Joe Biden colocará a fita azul que segura a Medalha de Honra no pescoço de Davis. “Quando você está a lutar, não pensa nesse momento”, salientou Davis, que acrescenta: “Você está apenas a tentar sobreviver”. Esse momento durou quase 19 horas e estendeu-se por dois dias em meados de junho de 1965. Davis, então capitão e comandante do 5.º Grupo de Forças Especiais, travou um combate quase contínuo durante uma incursão antes do amanhecer num acampamento do exército norte-vietnamita na aldeia de Bong Son, na província de Binh Dinh. O então capitão Davis liderou o ataque contra o inimigo, pediu fogo de artilharia de precisão, travou combate corpo a corpo com os norte-vietnamitas e frustrou a captura de três soldados americanos - tudo isso enquanto sofria vários ferimentos de tiros e de fragmentos de granada. Davis usou o dedo mindinho para disparar a sua espingarda depois de ficar ferido na mão devido a uma granada inimiga, segundo relatos. Depois, Davis correu várias vezes num arrozal, em campo aberto, para resgatar cada membro da sua equipa, de acordo com o ArmyTimes. Toda a sua equipa sobreviveu e Davis recusou deixar o campo de batalha até que os seus homens fossem retirados em segurança. Nascido em Cleveland, Davis aposentou-se em 1985 no posto de coronel, e diz que receber a medalha é como ganhar um sorvete de cone há muito esperado. Biden ligou-lhe há várias semanas para dar a notícia da atribuição da distinção. A filha de Davis, Regan Davis Hopper, mãe de dois filhos adolescentes, disse à AP que só soube do heroísmo do seu pai em 2019. Mas, como ele, ela disse que tenta não se dececionar com a forma como a situação foi tratada. “Tento não pensar nisso. Eu tento não deixar isso afetar-me e fazer-me perder a emoção e o entusiasmo do momento. Considero que o mais importante é o quão excitante deve ser para a América conhecer o meu pai. Estou muito orgulhosa dele”, afirmou.