2023-01-11 18:56:00 Jornal de Madeira

Ucrânia: Apoio da Europa a Kiev só foi possível com Estados Unidos

O cientista político búlgaro Ivan Krastev considerou hoje que a Europa não estava preparada para a guerra na Ucrânia e que mesmo tendo vontade política de ajudar Kiev isso só seria possível com os Estados Unidos. Krastev defendeu, durante uma conferência em Viena, a que a Lusa assistiu por vídeo, que a Europa descobriu com a guerra na Ucrânia que continua a ser um protetorado dos Estados Unidos em termos de segurança. “A Europa não estava preparada para uma guerra e, como resultado disso, quando começou, era bastante claro que a conversa sobre objetivos estratégicos europeus não fazia muito sentido, porque na ausência da participação norte-americana, a Europa, mesmo que houvesse uma vontade política, seria incapaz de ajudar”, afirmou. Krastev, que preside ao Centro de Estratégias Liberais de Sófia, e publicou uma dezena de livros sobre os temas da democracia e da Europa, referiu os investimentos modestos na União Europeia (UE) em defesa como uma das razões para a dependência dos Estados Unidos. Como resultado, a presença do poder dos Estados Unidos na Europa “poderá aumentar muito”. “Esta é a realidade e a consolidação da Europa acontece em grande parte em torno dos Estados Unidos”, afirmou. Krastev preconizou que a guerra na Ucrânia deverá provocar novas assimetrias na Europa, com os países do leste a investirem mais na defesa dada a proximidade com a Rússia, que invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro do ano passado. “A começar pelo exército ucraniano, obviamente, um dos melhores exércitos que temos na Europa”, afirmou, referindo também os investimentos militares na Polónia. Ivan Krastev disse não acreditar que se venham a registar divisões na UE no apoio à Ucrânia se os Estados Unidos mantiveram a sua posição, mesmo que em alguns países se “produza ruído”. “Os partidos que se expressam muito sobre este tipo de questões, quando chegam ao poder podem mudar a retórica, mas não vão mudar a política. O custo é muito elevado”, justificou. Na sua perspetiva, a verdadeira questão surgirá depois da guerra na Ucrânia, que deverá levar os europeus a ter de “redefinir o seu projeto em muitos aspetos”, dadas as dimensões económicas da crise desencadeadas pelo conflito. Krastev antecipou que os líderes europeus vão ter de lidar com uma opinião pública que dirá que “os russos estão errados, que os norte-americanos também estão errados e queriam esta guerra, porque são os principais beneficiários e a Europa é a perdedora”. Pessoas que dirão, basicamente, que os europeus estão “espremidos entre os russos e os norte-americanos”. “Creio que este vai ser o grande debate político em 2023” na Europa, acrescentou o politólogo búlgaro. A conferência, sobre o tema “2023: Desafios e Escolhas da Europa”, foi promovida pelo clube de imprensa Concordia de Viena, fundado em 1859.

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