2022-04-22 08:38:00 Jornal de Madeira

Antigo primeiro-ministro francês alerta que risco de eleição da extrema-direita “nunca foi tão elevado”

O antigo primeiro-ministro socialista Jean-Marc Ayrault adverte que a ameaça de a França eleger um Presidente de extrema-direita “nunca foi tão elevada”, apelando a que não se “brinque com o fogo” e se vote em Emmanuel Macron. “Penso que a ameaça de eleger um Presidente de extrema-direita nunca foi tão elevada. (…) O risco persiste e não devemos brincar com o fogo”, afirma Jean-Marc Ayrault em entrevista à agência Lusa. O antigo primeiro-ministro francês, que ocupou o cargo entre 15 de maio de 2012 e 31 de março de 2014 – quando François Hollande era Presidente da República – considera que, apesar de as últimas sondagens darem um avanço de 10% a Emmanuel Macron sobre a sua adversária, Marine Le Pen, a abstenção poderá beneficiar a candidata da União Nacional, tornando o cenário da sua eleição realista. “Já vimos o mesmo cenário noutras eleições. Nos Estados Unidos, diziam que o Trump não tinha nenhuma hipótese e foi eleito. Na véspera do referendo, diziam que o ‘Brexit’ não ia passar, e passou. Por isso, eu seria extremamente prudente, não devemos brincar com o fogo”, sublinha. O antigo governante relembra que Le Pen propõe uma “mudança de regime”, designadamente através da proposta de referendos para mudar a Constituição e que põem “em causa os valores fundamentais da República” francesa, como o Estado de direito, a liberdade de imprensa, a independência da Justiça, ou o respeito pela diversidade. “Tudo o que estamos a ver na Hungria corresponde a esse modelo, e esse modelo não é teórico, é prático, já que o senhor [Viktor] Orbán [primeiro-ministro húngaro] acabou de ser eleito pela quarta vez consecutiva. E vemos o que acontece: quando essas pessoas chegam ao poder, não é fácil tirá-las de lá”, refere. Ainda que na primeira volta das eleições presidenciais tenha votado no Partido Socialista – que diz ser a sua “família política”, apesar de reconhecer que está “em crise” –, Ayrault apela a que, na segunda volta, que se disputa este domingo, os eleitores depositem na urna um voto em Emmanuel Macron. O antigo primeiro-ministro frisa que, nos últimos anos, os ideais da extrema-direita têm-se “banalizado” na sociedade francesa, relembrando que, quando Jean-Marie Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais francesas, em 2002, contra Jacques Chirac, houve uma “mobilização muito potente”, com “centenas de milhares de pessoas” a manifestarem-se contra a extrema-direita. Jacques Chirac venceria a segunda volta com 82,21% dos votos. “Não vimos isso em 2017 [quando Marine Le Pen também chegou à segunda volta das eleições], e agora ainda menos. Há algumas manifestações, mas é marginal. Por isso, há uma banalização, uma presença de ideias de extrema-direita e uma grande dificuldade em combatê-las”, referiu. Segundo Jean-Marc Ayrault, essa banalização foi feita, por um lado, pela própria Marine Le Pen – que, nestas eleições, procurou “transformar a sua imagem” ao focar-se no poder de compra, evitando falar sobre as propostas mais radicais –, mas também porque várias “correntes políticas” deixaram-se influenciar pela ideologia da União Nacional. “À direita, [a candidata dos Republicanos, Valérie] Pécresse correu atrás dessas ideias, reproduziu temas da extrema-direita, porque pensava que iria conseguir preservar os seus eleitores. Mas, quando corremos atrás da extrema-direita, os eleitores preferem o original à cópia. Portanto, há uma barreira que caiu, e por isso é que digo que a ameaça é real”, reforça. Ayrault considera ainda que os partidos de Governo – no qual também inclui o Partido Socialista – provocaram uma “desilusão à medida que foram exercendo o poder”, atribuindo também culpas ao atual Presidente francês, Emmanuel Macron, que acusa de ter reforçado “a dimensão de centralização do poder nas mãos de uma única pessoa”. “Desenvolveu-se uma prática, durante este mandato, de menorizar os poderes intermediários, e em particular as organizações sindicais. Quando se quer fazer reformas, como por exemplo a reforma do sistema de pensões, é preciso negociar, é preciso encontrar um compromisso. (…) Acho que se esqueceu disso”, indica. De forma a responder ao crescimento da extrema-direita, o antigo primeiro-ministro apela assim a que “não se ceda nos princípios”, defendendo que os “franceses estão muito ligados à herança da Revolução francesa, e à ‘liberdade, igualdade e fraternidade’”. “Acho que é preciso mais respeito pelas pessoas modestas. Há o sentimento de que os que estão em cima e sabem tudo, têm tudo, e que são os que estão em baixo que sofrem. Acho que é preciso mudar de atitude. É preciso mais respeito e estar mais à escuta”, sublinha.

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