2014-10-03 12:00:19 Tribuna da Madeira

O que é uma “contracapa”? Porquê?

Publicamente, o Ministro da Educação e da Ciência, Nuno Crato, veio pedir desculpa porque um concurso de professores correu muito mal, sendo necessário repeti-lo. Já houve uma demissão no ministério e surgiu a anedota: um matemático falha nas contas elementares. O ano escolar 2014-2015 não começou da melhor forma. Para quem trata destes processos, deveria ser uma rotina, mas, claramente, não o é. A inovação, as experiências e as mudanças são anuais. Por todo o país, algumas escolas vão fechar porque não têm um número suficiente de crianças. Houve tempos em que deveriam ser no mínimo 10. Agora, segundo consta, devem ser 20. Existem estabelecimentos com muitas crianças, mas a equipa do Ministro quer encerrá-los, manifestando-se pais e autarcas contra a medida. Além disso, mais de mil professores estarão por colocar e vários estudantes começam o ano sem docentes e sem aulas. Fico por aqui neste rol que a comunicação social vai desenrolando. Se olharmos apenas para o que está a correr mal, tenderemos a esquecer o que vai acontecendo dentro da normalidade e, por isso, bem. Ter a noção da realidade é ver os dois lados. Portanto, no geral, começámos mais um ano escolar de trabalho. Os pais foram comprando os materiais e a maioria das pastas ficou pronta a tempo. Numa destas tarefas preparatórias, uma amiga telefonou-me com uma dúvida. O que é uma “contracapa”? Numa escola de ensino básico, recomendaram que os cadernos fossem identificados na contracapa e houve quem ficasse com dúvidas. Uns pais diziam que era a parte interior da capa e outros que era a parte detrás do caderno, a do lado oposto à capa. Eu nunca pensei no termo para um caderno, mas tenho-o usado para os livros. Na resposta que dei, optei, então, pela segunda possibilidade. Contudo, fiquei com uma “pulga atrás da orelha” e pensei dedicar esta crónica ao assunto. Reflectir sobre tudo, incluindo detalhes linguísticos como este, é um exercício que aprecio bastante porque coloca problemas que continuarei, aqui, a propor. Isto não significa que saiba tudo ou que o assunto fique, na íntegra, resolvido. Resumidamente, esta questão será do domínio da Lexicologia, da Lexicografia e da Semântica, sendo, também, um problema relacionado com a linguagem técnica. Neste caso, é provável que tenhamos de distinguir um sentido específico e técnico, da área das Artes Gráficas e da Encadernação, do que se usa comummente. Todos sabemos que uma capa, enquanto peça de roupa, serve para recobrir. O vocábulo aplicado ao livro terá o mesmo sentido, isto é, o de “cobertura”. Portanto, no geral, a capa de um livro ou de um caderno será o material que serve para recobrir o miolo, ou seja, as páginas em si. Porém, passou a especificar-se, designando a capa “a parte dianteira”. Logicamente, a contracapa identificou-se com “a parte traseira”. Se tivermos um livro fechado, em cima de uma mesa, vendo o título e o nome do autor, estaremos a olhar para a capa. Se o virarmos, veremos a contracapa. A lombada separa as duas. Usaremos todos “capa” e “contracapa” com estes sentidos? Que revelarão os dicionários do tira-dúvidas a propósito? As respostas são tão variadas que compreendo bem a confusão dos pais na simples tarefa de identificar os cadernos dos filhos. Do conjunto de dicionários consultados (cf. tira-dúvidas), o FIGUEIREDO não apresenta os verbetes. O MACHADO ignora o sentido de “capa” ligado a livro ou similar e a definição de “contracapa” é pouco esclarecedora. As referências brasileiras, o HOUAISS e o AURÉLIO, fazem a distinção entre exterior (capa) e interior (contracapa). Concordam com a ideia de a “capa” ser o que envolve, externamente, o miolo do livro, caderno, etc., identificando a “contracapa” o interior da capa. O dicionário da ACADEMIA considera dois sentidos para “capa”: 1) a totalidade exterior e 2) a parte da frente. Segundo este dicionário, a “contracapa” corresponde à parte interior da “capa” (enquanto elemento exterior) e tem um uso familiar: a acepção de parte posterior, oposta à da frente do livro. O dicionário da PORTO EDITORA veicula exclusivamente este último sentido de “contracapa”, mantendo, porém, os dois de “capa” (1- totalidade exterior e 2- parte da frente). Na obra da PRIBERAM, registam-se os dois sentidos de “capa” e os de “contracapa”. Já sabemos que é fácil o que se entende e complexo, ou discutível, o contrário. Portanto, para um provável tira-teimas, nada melhor que um breve tira-dúvidas porque as dúvidas são o primeiro passo, mas não podem ser o último. Por que razão o termo “contracapa” pode suscitar dúvidas? Porquê? É porque tem, pelo menos no Português Europeu, dois sentidos: a) face interior da capa e b) parte posterior do livro, da encadernação, etc. Isso acontece porque “capa” também tem dois sentidos: a) a cobertura integral do livro, da encadernação, etc. e b) parte anterior dessa cobertura. Logo, para evitar confusões e equívocos, quando falamos em “capa” ou “contracapa”, temos de especificar o que pretendemos dizer. Eu vou manter os sentidos que sempre usei: “capa” é, apenas, a parte da frente da encadernação e “contracapa” a de trás. O interior de uma e de outra designo-os como tal ou, então, “verso”, tendo a capa e a contracapa frente e verso. Não sei como terminou este caso, mas estou convencida que alguns pais terão identificado os cadernos dos filhos no verso da capa e outros na contracapa, havendo alguns outros que o terão feito na face interior da contracapa (o verso). Quando […]

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