09/02/2010, 03:00

Poluição mina lagoa do Lugar de Baixo

"Não existe nenhum programa de educação ambiental ou de ecoturismo"

A lagoa do Lugar de Baixo, um 'habitat' costeiro único na Região, está poluída e não é limpa há cinco anos. O centro de educação ambiental, criado para dinamizar aquele santuário para as aves marinhas migrantes do Atlântico Norte, é um projecto mergulhado no 'lodo' - há as instalações, mas falta tudo o resto. "Um potencial desaproveitado", resume a Quercus.

"É pena que não se potencie nem que seja ao nível do ecoturismo, nem que seja com mais oferta e se consiga obter dali uma mais valia, pois é pena que aquele investimento tenha sido apenas um custo e não um proveito", lamenta o dirigente da associação ambientalista Quercus, referindo-se ao pólo de infra-estruturas criadas no Lugar de Baixo, junto à lagoa. "É uma oportunidade que se perde para rentabilizar o que já foi feito mas também para apostar na preservação dos valores naturais, para educar e sensibilizar para o ambiente", fundamenta Hélder Spínola.

A publicação de um guia das aves que visitam a lagoa - pela Direcção Regional do Ambiente (DRA) - foi o pouco trabalho feito no campo da preservação e sensibilização ambiental a favor da lagoa.

De resto, a única intervenção em prol do ambiente remonta a 2005, quando uma campanha envolvendo alunos das escolas da Ponta do Sol, removeu 19 sacos com lixo diverso daquela bacia hidrográfica com cerca de 3.500 m2, que se assume como um dos principais pontos de observação de aves na Região.

A Quercus recorda que chegou a estar ali prevista a criação de um centro de interpretação da natureza e de educação ambiental. O projecto passou depois a denominar-se centro de ecoturismo. Hoje, nenhuma das ideias passou do papel.

Protocolo nunca foi assinado

Confrontado pelo DIÁRIO, o director regional do Ambiente, João Correia, esclareceu ontem que tal não avançou ainda porque nunca chegou a se concretizar o protocolo entre as direcções regionais do Turismo, do Ambiente e a Sociedade de desenvolvimento Ponta do Oeste (SDPO). João Correia justifica que cabe a esta última, enquanto entidade detentora do espaço, a iniciativa para dar desencadear o processo. "Da nossa parte manifestamos disponibilidade para tal", reitera. Ontem à noite já não foi possível ouvir alguém ligado à Sociedade.

No novo edifício, construído pela SDPO - para a qual a Quercus realizou um estudo de requalificação ambiental, em Outubro de 2003 - , encontrámos apenas uma funcionária da Direcção Regional do Turismo, uma entusiasta em ornitologia. Mas uma presença que tem os dias contados. Da parte da DRA, há apenas uns 'placards' com "fotografias das aves, uma sala de reuniões que é usada na sequência das solicitações e pouco mais", admite João Correia.

"Metade de todo o edifício que foi construído do lado do mar, está desaproveitado e poderia estar obviamente mais dinamizado com um centro de educação ambiental e de interpretação da natureza vocacionado para a lagoa", manifesta Helder Spínola.

A construção da marina do Lugar de Baixo chegou a ser apontada para a zona da lagoa. A localização da obra virou cavalo de batalha dos ambientalistas e, no fim, os argumentos da importância ambiental daquela bacia hidrográfica foram reconhecidos, deitando por terra a ideia de implantar ali o projecto megalómano.

Entretanto, volvidos quase sete anos, não se vislumbra qualquer benefício ou proveito do potencial da lagoa para a Madeira.

"Algumas pessoas por iniciativa individual vão lá fazer fotografia e observação de aves junto ao rochedo, munidos de binóculos ou de máquinas fotográficas com objectivas de grande ampliação, mas ao nível institucional não existe nenhum programa de educação ambiental ou de ecoturismo, que pudesse aproveitar as potencialidades daquele espaço", lamenta o ambientalista.

Durante uma manhã, não encontrámos mais de três casais estrangeiros que ali partiam à aventura da descoberta. Chegam à lagoa guiados pela sinalização do 'i' do posto de informação turística existente na área comercial no centro da freguesia. Mas, do centro de educação ambiental que para ali estava previsto, não há qualquer sinal.

Cenário desolador

Em ano dedicado à preservação da biodiversidade, o cenário encontrado na Lagoa do Lugar de Baixo é desolador.

A grande concentração de resíduos - garrafas de vidro embalagens de plástico, desperdícios domésticos e de construção civil - amontoam-se entre os caniços secos e esmagados pelo depósito de lixo. Sobre o rochedo, jaz uma sucata ferrugenta castigada pela maresia.

A ala sudoeste da bacia está mais degradada, impregnada com uma grande mancha de poluentes que enegrecem a água turva. "Disgusting (nojento!)", resume o cenário uma turista que, entre os rochedos, descobre os cantos à lagoa, entre as rochas basálticas que aparelham o quebra-mar. Do outro lado da margem, onde se concentram os patos da localidade, há também plásticos a boiar e restos de vegetação apodrecidos na água.

A Lagoa do Lugar de Baixo assemelha-se a um oásis para as aves marinhas. A presença de água potável no litoral, a paisagem protegida e calma que ali prevalecem são factores favoráveis à 'aterragem' destes voadores.

Nos calhaus do mar, um grupo de alvéolas-cinzentas (lavandeiras), deliciam-se com a frágil rebentação das ondas. Mas na lagoa são vistas com muita frequência gaivotas-de-patas-amarelas, garajaus, guinchos, vira-pedras e garças-reais, entre outras aves marinhas migrantes que ali fazem uma paragem para descansar, recuperar forças e beber água, antes de prosseguir viagem.

No estudo de requalificação ambiental da lagoa do Lugar de Baixo que Quercus elaborou para a SDPO, foram inventariadas 30 espécies diferentes, entre aves locais, nidificantes e ocasionais. Mas há ornitólogos que já contabilizaram cerca de 70.

Desde então, a lagoa tem estado entregue às mutações da natureza e à incúria do Homem. Na última semana, o mar galgou o rochedo e invadiu a bacia da lagoa elevando o caudal do plano de água com os seus 3.500 m2. O reservatório de água potável, situado mais a nascente, chegou a estar ameaçado pela salinidade do mar. Mas, na manhã seguinte, a natureza recompôs a normalidade, através do 'escoadouro' da muralha, com a baixa da maré. Só não limpou as manchas de poluição. Essas ficam 'cravadas' na natureza.

"Falta de consciência cívica"

A degradação hidrográfica na lagoa é do conhecimento da Câmara Municipal da Ponta do Sol. Rui Marques reconhece o problema da deposição de resíduos e atribui isso "à falta de consciência cívica das pessoas", que atiram lixo para um afluente.

Embora ontem não estivesse em condições de aprofundar o tema, o autarca adiantou que já contactou a DRA a solicitar uma operação de limpeza conjunta. "A intervenção não pode ser feita de uma altura para a outra", explicou, referindo-se aos períodos de nidificação e de migração das aves, que recomendam a menor perturbação possível do Homem naquele meio natural.

Hélder Spínola concorda, mas exige acção. "Qualquer 'aproveitamento' da biodiversidade deste potencial tem de ser feito com o necessário cuidado, sobretudo ali concretamente, onde já foram feitos investimentos e executadas infra-estruturas pela Sociedade de Desenvolvimento", adverte.

Ambiente remete para Sociedade

O director regional do Ambiente reconhece a importância do espaço para as aves marinhas - "um local com alguma sensibilidade ecológica" - embora, sublinhe, não é uma área protegida, não desfrutando do estatuto que ostenta, por exemplo, o Parque Natural da Madeira. É nesse sentido que esclarece: "a DRA não tem competência na gestão directa de espaços físicos ou de limpeza".

João Correia que recusa o ónus da responsabilidade pelo estado de degradação da lagoa, endereçando-a à entidade gestora do espaço - a SDPO. Em matéria de limpeza, o director do Ambiente confirma já ter sido contactado pela Câmara da Ponta do Sol, com que diz haver diálogo. "Há pouco tempo pediram-nos um parecer sobre a aplicação de raticida, por causa das aves nidificantes", alude. Mas, a remoção do lixo compete à autarquia, entende João Correia. "Nós? Não temos meios, nem funcionários".

Estudo da Quercus em 'saco roto'

Há oito anos, a Quercus-Madeira elaborou um estudo para a requalificação ambiental da lagoa propondo, entre outros, a realização frequente de análises à qualidade da água com publicação de resultados.

Além da concentração de fósforos, potássio, nitratos e carência química de oxigénio, a associação ambientalista propunha que o Laboratório de Controlo da Qualidade da Água da empresa 'Investimentos e Gestão da Água' futuramente, incluísse outros parâmetros. "Para que possam acompanhar a lagoa ao longo do ano, o que poderá ser feito num processo de monitorização a desenvolver depois do início do processo de requalificação ambiental do espaço".

Naquele documento com 46 páginas, apontava ainda a vegetação a utilizar na requalificação e os factores de perturbação devido à presença humana. Mas, a avaliar pelo estado de conservação da lagoa, o estudo caiu em 'saco roto'.

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Fonte: Diário de Notícias

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